Álbum ‘Casas’, de Rubel, pode ser um bom aliado em tempos de quarentena

*por Ana Clara Fonseca (jornalista)

“Uso óculos desde os cinco anos de idade. Estou sempre por detrás de uma janela de vidro. Não faz mal, eu inteira sou a minha própria casa.” Valter Hugo Mãe

Parafraseando Martin Bernardes: “para uma classe média enjoada e com pinta de artista”, o álbum de Rubel é um presente em dias de reclusão, para as mudanças diárias de quem pode ficar em casa. O ano poderia ser 2020 e o lançamento do álbum “Casas”, do cantor e compositor Rubel Brisolla, aconteceria em maio. Em seu jogo musical regado a emoções e sentimentalismo, não só nos aproximamos da alma apaixonante do cantor como também nos colocamos inteiramente presentes, protagonizando cada tom, encaixando-os no dia a dia de isolamento.

O álbum começa com uma pequena introdução, narrando o início de uma história cheia de vida. A brevidade da faixa é uma apresentação à sequência musical simétrica que compõem o disco, revelando que não é tão breve assim. É o momento de entrar nessa casa e explorá-la em cada canto, em cada cômodo. Um ambiente iluminado que vai se transformando até escurecer, e aí renascer o sol. A primeira música, “Colégio”, é nada menos que uma das casas mais marcantes de nossas vidas. É o momento da socialização, de se tornar indivíduo em uma sociedade. Lugar de desapego e deslaço da casa em que nascemos e da família acolhedora.

Seguindo com a canção “Cachorro”, com o nome sugestivo para dizer sobre aquele primeiro bicho de estimação que nunca nos esqueceremos. Ao mesmo tempo dar o ar da infância, e falar, finalmente, aos nossos desejos incessáveis. A dor de crescer e seguir critérios padronizados a se portar na cidade, nos alguéns, nos amores, nas saudades, da ingenuidade e inocência de criança. “Quero cantar, quero viver” é verso que aparece repetidas vezes na melodia. Claro, são os desejos tão transparentes e comparáveis aos que temos enquanto passamos dias dentro de casa.

Segue “Pinguim”, para falar de um certo alguém com todas as suas características mais marcantes. É fácil enxergar a inspiração dessa música e se apaixonar por ela. Ou talvez não pela mesma pessoa de Rubel, mas, sim, pelas lembranças dos amores passageiros que já nos foram “casa”. É uma carta que não foi enviada e que agora aparece abruptamente. Pinguim, o acessório de geladeira todo característico. “Eu vou passar cê vai passar também vamos passar porque passando vai passar, meu bem”. Nenhum mantra mais marcante do que esse. Vai passar, os dias, a quarentena, as lembranças, eu e você.

“Casquinha” é um samba delicioso para trazer as alegrias do coração. É uma bela trilha na busca pela perfeição, nos tons que gritam alegria, alegria! “Deixa que o canto saia ruim desde que venha do coração”. Basta arredar os móveis da sala e se encontrar por dentro em cada passo de uma dança sem coordenação. “Vai honrar a força que te faz cantar”. Não preciso dizer mais nada. E segue em um batuque para ligar a uma das canções mais significativas do disco, “Mantra”. Rubel cede o lugar a Emicida e ali deixa fluir a ideia da sabedoria e da busca pelo conhecimento. “Não me deixe esquecer que a gente não precisa de nada, nada”.

E então o mantra eterno sobre as questões sociais, raciais e culturais que vêm nos batendo de frente, escancarando o que antes nos tornava cegos. O vírus que chegou para nos fazer perceber humanos. E a canção acaba para iniciar “Passagem”: são trechos de depoimentos de jovens estudantes, parte de um documentário dirigido pelo compositor em 2015, sobre a realização dos sonhos individuais e tão únicos.

“Explodir” é a imersão em um mar de sentimentos. A música lembra as canções de Marcelo Camelo. É sobre transbordar-se e, nesse mergulho, deixar que escorra a todo canto, até que derreta alguém próximo dentro de nós mesmos. “Deixa eu explodir, deixa eu te derreter mais”. Quanto mais olhamos para dentro, o que muitas vezes esses dias de isolamento tem feito, a tendência é uma hora explodirmos para deixar que aconteça e lidemos com toda a saudade, tão grande.

“Sapato”, que nos permite caminhar mesmo com os pés cansados e saudosos, para mim é das letras mais profundas e intensas do disco. Tudo o que a compõe aperta o peito. Com quem caminhamos nessa estrada, ou com quem queremos caminhar. Gostar de alguém e precisar tê-lo. Será preciso um par de sapato para tecer história nessa estrada incansável e longa? “Talvez o que a gente queira mesmo é um bom par de sapato”. Talvez seja.

Então chega “Chiste” com um aviso para sorrir: pega a dor e dança! Sem querer se despedir, mas, sim, para dizer que ela é uma boa acompanhante. Com a presença mais que eloquente de Rincon Sapiência, é preciso deixar que o sorriso também apareça, como dias quentes, como dias que parecem abraço. Um abraço, e completa-se a canção com “Fogueira”, que chega para aquecer os corações. Uma permissão para a narrativa fluir, com dor, calma, alegria e tristeza.

Então “Partilhar”, a música de maior alcance do disco, conquista a maioria dos amores certeiros de uma ponta a outra dos oceanos. Sobre partilhar a vida e as pessoas que, muitas vezes, temos o privilégio de ter ao lado nesses momentos de prova. Nada melhor para refletir sobre quem anda lado a lado, ou quem gostaríamos que andasse. Alguém “lar” em tempos sombrios. E “Santana”, a nossa casa onde é fácil ser feliz. Na intimidade e individualidade de cada um, em quem somos e o lugar que ocupamos. O que podemos ser? Uma pandemia que chega para abalar nossas estruturas nos faz refletir sobre passado e futuro. O que é ingrato, e ainda mais, injusto.

E o disco termina deixando o ar da saudade, um aperto no peito e uma brisa de sorrisos sinceros. Estamos frente a frente com as nossas sombras e com a oportunidade de trazê-las para nossos dias. Nos diz que está tudo bem não estar bem, mas que seguimos. É só um aviso para nos dizer que podemos viver sem tudo o que achamos que temos, jamais sem a arte. Aquilo que transparece em nós mesmos.

Tudo o que precisamos está em casa, ou em “Casas”. Basta procurarmos, e, assim que encontrarmos, bater um longo papo, íntimo e, muitas vezes, sem fim. Deixar doer, deixar ser, e sorrir. Rubel lançou o álbum “Casas” em 2018, mas poderia ter sido 2020. Fica aqui um belo convite para passar por essa porta singela e olharmos para dentro das casas que somos, e estamos.

Fotos: Giovanna Gebrin/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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