“Ainda é noite. Densa como a neblina da vigília que se estende entre o primeiro sono e a derrisão do adormecimento…”
Uma pergunta insistente e a mesma dúvida persegue todas as personagens a despeito de suas diferenças: o que acontece “…quando tudo desaparecer…”? Esse é o mote da peça escrita pelo jornalista, letrista e poeta Raphael Vidigal Aroeira em sua estreia na dramaturgia, que, com seu texto sensível e poético despertou o interesse de um elenco formado por nomes consagrados da cena mineira – tanto em teatro como em cinema.
Gláucia Vandeveld, Adyr Assumpção, Cláudio Dias e Camila Felix encarnam as personagens oblíquas e densas dessa travessia cênica. Não é exagero dizer que, pela primeira vez, a cena teatral mineira, habituada a grupos e coletivos, reúne para um projeto específico uma trupe de longa e reconhecida trajetória nessa arte que conta com a presença do instante vivo para existir.
Atriz, diretora e professora de teatro, Gláucia Vandeveld integra a Zula Cia de Teatro e tem entre seus trabalhos os espetáculos “Banho de Sol” e “CASA”. É a diretora do renomado “Às que aqui ficaram” da Tríade Cia. De Teatro. No cinema participa, entre outros trabalhos, do elenco de filmes premiados como “Levante” de Lillah Halla; “No Coração do Mundo“ de Gabriel Martins e Maurílio Martins; e “Arábia” de Affonso Uchôa e João Dumans. Também esteve em peças do Espanca!.
Ator, diretor e membro-fundador da Cia. de Teatro Luna Lunera, Cláudio Dias é formado em História pela UFMG, com formação em Artes Cênicas pelo Palácio das Artes/Cefart, e construiu uma sólida carreira no teatro, marcada por atuações em peças como “Fazer festa com o perigo: Cintura Fina” (2024), “Auto da Compadecida: A Ópera” (2022), “E ainda assim se levantar” (2019), “Perdoa-me por me traíres” (2000) e “Antígona” (1995). Além disso, co-dirigiu e atuou nos aclamados espetáculos “Aqueles Dois” (2007) e “Prazer” (2013).
Ator, diretor, dramaturgo e produtor, Adyr Assumpção adaptou e dirigiu recentemente o “Sortilégio”, de Abdias Nascimento, e esteve em turnê nacional com o espetáculo “Leão Rosário”, uma adaptação sua do “Rei Lear”, de Shakespeare. No cinema, pode ser visto nos recentes filmes “O Silêncio das Ostras”, de Marcos Pimentel, e em “O Coro do Te-ato”, de Stella Penido, que remonta aos primeiros anos da trupe do Teatro Oficina de Zé Celso Martinez Corrêa. Graduado em Teatro pela UFMG e Mestre em Artes pela Unicamp, também é idealizador do festival de cinema “Imagem dos Povos”, voltado a produções indígenas e da diáspora negra.
Atriz, bailarina e coreógrafa, Camila Felix, formada em Teatro pela UFMG, foi dançarina do Grupo Primeiro Ato e integrou, em 2023, o elenco da premiada versão do Grupo Oficcina Multimédia para “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues. Também atuou nos espetáculos “Colóquio Sentimental”, “EuLírico: Mulher”, “A Contribuição Milionário de Todos os Erros”, “Estrela ou Escombros da Babilônia”, dentre outros. No cinema, protagonizou “Anita Garibaldi: Visões e fragmentos de Vida”, de Gianluca Barbadori.
Dor revestida em beleza
O espetáculo teatral “…quando tudo desaparecer…” versa sobre a angústia diante da passagem do tempo e a dor inexorável da perda, aqui revestida em beleza. Na trama, uma mãe precisa lidar com a ausência da filha, enquanto um amor que nunca se deu por inteiro debate-se com os fantasmas de tudo que poderia ter sido mas não foi.
Com direção de Gabriela Luque, a montagem aposta em uma abordagem pós-dramática do teatro, em que a representação é calcada em um jogo explícito entre realidade e fantasia. A trilha sonora é assinada por Ed Nasque, enquanto figurinos e cenografia ficam por conta de Alê Tavera e a iluminação é de Gabriel Corrêa. As projeções são de Felipe Canêdo, que lança um olhar inventivo a essa delicada construção coletiva.
A peça realiza a sua temporada de estreia percorrendo três teatros simbólicos e emblemáticos da capital mineira. De 4 a 7 de junho (quinta a domingo) ocupa o aconchegante Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, dentro da programação do projeto Palácio Todo Dia. Na segunda semana de junho, entre os dias 11, 12 e 14 de junho (com exceção de sábado, 13/06, por conta do jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo), a montagem aporta no charmoso palco italiano do Teatro da Cidade, integrando a programação do No Palco Cidade. Por fim, chega ao Galpão 1 da Funarte (rua Januária, 68), onde permanece por dois finais de semana, de quinta a domingo, entre os dias 18 e 21 de junho; e de 25 a 28 de junho, completando um mês em cartaz.
Conjugando remorso, culpa, leveza, peso, melancolia e esperança, a peça toca em temas universais, que não se esmaecem ante a lentidão ou pressa das horas de sempre, e que, de um modo ou de outro, chegam ao âmago de qualquer ser humano. O que se estabelece, ao fundo, é um convite, um braço estendido para que as solidões que experimentamos cada vez mais sejam, ao menos por alguns instantes, compartilhadas ante a beleza e a sabedoria propiciadas pela arte, e, se não purgando por completo, ao menos aliviando a agudeza de nossas opressões diárias. O complemento da sentença que dá nome ao espetáculo, embora ambíguo, contém em si o gérmen de uma possibilidade para além do que se poderia imaginar.
Serviço
Primeira semana
O quê. Peça “…quando tudo desaparecer…”, de Raphael Vidigal Aroeira
Quando. De quinta (4) a sábado (6) às 20h; e domingo (7), às 19h
Onde. Teatro João Ceschiatti no Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537)
Quanto. R$30 (inteira) e R$15 (meia) pelo www.sympla.com.br ou na bilheteria
Segunda semana
O quê. Peça “…quando tudo desaparecer…”, de Raphael Vidigal Aroeira
Quando. Quinta (11) e sexta (12) às 20h; domingo (14) às 19h
Onde. Teatro da Cidade (rua da Bahia, 1.341)
Quanto. R$60 (inteira) e R$30 (meia) pelo www.sympla.com.br ou na bilheteria
Terceira semana
O quê. Peça “…quando tudo desaparecer”, de Raphael Vidigal Aroeira
Quando. De 18 de junho a 21 de junho; e de 25 de junho a 28 de junho; quintas e sextas às 20h; sábados e domingos às 19h
Onde. Funarte (rua Januária, 68)
Quanto. Ingressos entre R$30 (inteira) e R$15 (meia) pelo www.sympla.com.br ou na bilheteria
Foto: Luiza Villarroel/Divulgação


