O alumbramento de “O Que Será”, por Hugo Sukman

*Hugo Sukman (jornalista, crítico musical, autor de “Som Livre: Uma Biografia do Ouvido Brasileiro” e “Nara – 1964”)

“E não adiantaria explicar porque a explicação exige uma outra explicação que exigiria uma outra explicação e que se abriria de novo para o mistério.” Clarice Lispector

Como um alumbramento.

Imagina que você está aprendendo a ler nos livros e seu pai chega em casa com um disco envolvido em plástico, que logo é aberto, como um vestido, e o disco desnudado. Mania de ler, que bom, muita coisa para ler: em tipologia antiga, “Meus Caros Amigos” e, logo abaixo, Chico Buarque. E ao lado: “O que será (À flor da Terra)”, Chico Buarque (de novo, agora entre parênteses) e Do filme “Dona Flor e seus dois maridos” de Bruno Barreto.

Alumbramento, lembra? Uma canção brasileira de Chico Buarque composta para um filme herdeiro do Cinema Novo, feito a partir de um romance de Jorge Amado. Ler, ler mais: piano, Francis Hime; violão, Artur Verocai; baixo, Luisão; bateria, Elber Bedack e nomes e mais nomes sem sobrenomes na percussão, flautas, trompas, clarinete (Zé Bodega, nome nunca mais esquecido…), trompetes, trombones, sax tenor e sax alto. E cordas… Participação vocal de Milton Nascimento, gentilmente cedido pela Odeon (adorável a gentileza da Odeon para com a Philips, cujo nome podia ser lido no selo da capa). Arranjo: Francis Hime – sim, aquele do piano lá em cima.

Põe-se o disco na vitrola. Sem preparação (como nos sustos dos alumbramentos) nem introdução, ouve-se logo a questão fundamental: “O que será, que será”, mas não simplesmente a questão, a questão na voz mais aberta e mais aguda de Chico sobre o balanço intenso do piano (Francis, né?), o baixo do Luisão Maia emulando um surdo ou uma zabumba, a bateria e percussões. E as palavras: o que será que será “que andam suspirando pelas alcovas/que andam sussurrando em versos e trovas/Que andam combinando no breu das tocas/Que anda nas cabeças, anda nas bocas/Que andam acendendo velas nos becos/Estão falando alto pelos botecos…”.

Em meio às rimas perfeitas ou toantes, as aliterações – alcovas, trovas, tocas, bocas, becos, botecos – ou se as palavras são clássicas (alcova, trova) ou vulgares (tocas, botecos), se o verbo andar é usado como auxiliar (às tramas dos suspiros, sussurros, combinações) ou metafórico (nas cabeças e nas bocas) surgem os sons dos instrumentos de sopro e das cordas, cada vez mais belos e intensos. E o som mais bonito do mundo, a voz do Milton, gentil como a Odeon ao ceder-lhe à Philips porque, agora ao ouvir sabemos: algo muito importante estava acontecendo e não ficaria bem negar a gentileza.

Em seu baião de melodia circular e um provocativo (nos dois usos da palavra) molho cubano, modulações e uma letra sobre o mistério do amor e da vida que seria tranquilamente assinada por um Camões, um Drummond, “O que será” aqui em sua terceira parte, “À flor da Terra” – para o filme há outras duas partes, a “Abertura” e “À flor da pele”- Chico Buarque traz Jorge Amado, Cinema Novo (e seus artistas), a voz de Milton, a orquestra com grandes músicos, tudo para, no pior momento da Ditadura, lembrar do “que não tem certeza, nem nunca terá”, do que não tem conserto, do que não tem censura, do que não tem governo, do que não tem vergonha, do que todos os risos vão desafiar e da profusão de imagens belas e livres que continuam por baixo (como na canção o piano, o baixo, a bateria, os sopros e as cordas) e além daqueles tempos tristes.

Para o garoto aprendendo a ler, mais do que o texto inventivo e exuberante, a orquestra, a voz de Milton e tudo mais deu-se o alumbramento: a vontade de ler tudo, de ouvir tudo, de se perguntar sempre “o que será que será” e responder, como no verso final: “O que não tem juízo”. Ou, pela música, pelo disco, como no “Alumbramento” de Manuel Bandeira diante da mulher primeira: “Eu vi-a nua… toda nua!”. Mas a vida, nua e inteira contida no baião.

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Email

Comentários pelo Facebook

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade