*Adelia Bezerra de Meneses (crítica literária, ensaísta e autora de “Chico Buarque ou A Poesia Resistente”)
“A mulher está perfeita.
Morto,
Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,
A ilusão de uma necessidade grega” Sylvia Plath
Na canção “Mulheres de Atenas” , através da linguagem da ironia (que consiste em sugerir o contrário do que está sendo dito ) Chico Buarque faz uma crítica contundente à submissão feminina, que alimenta o machismo da sociedade.
Sabemos que há em toda ironia um contraste entre o sentido literal das frases e a mensagem real que o emissor quer passar. “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”: quais são as “qualidades” e características femininas, ironicamente colocadas como “exemplos” para as demais mulheres? Elas vivem pros seus maridos, enfeitam-se quando amadas, não choram quando apanham, sofrem por seus homens, aguardam seu retorno das aventuras tanto guerreiras quanto eróticas, geram-lhes filhos, e, quando viúvas ou abandonadas, se encolhem, secam: não fazem cena. São seres que “ … não têm gosto ou vontade/ nem defeito, nem qualidade/ têm medo apenas.”
Efetivamente, o mesmo poeta que, em Choro Bandido declara falar grego com a nossa imaginação, aqui apresenta todo um universo antigo helênico, que nos remete à Ilíada e à Odisseia, convocando de Helena de Tróia (através das “pequenas Helenas” ) a Penélope (através dos “longos bordados” — alusão ao manto tecido pela mulher de Odisseu enquanto esperava sua volta, recusando-se a aceitar os príncipes aqueus pretendentes à sua mão). A rainha Penélope é o protótipo da mulher-que-espera, restrita aos limites da casa, enquanto seu homem, o grande Navegante Odisseu, enfrenta aventuras de todas as espécies, mares afora; Penélope é a patrona do amor conjugal e da fidelidade feminina. E as estrofes da canção de Chico Buarque nos falam ainda de naufrágios, presságios, heróis guerreiros, mas sobretudo de helenas, carícias plenas, , cadenas, penas, sirenas, quarentenas, etc — tudo rimando com “Atenas”. Aqui, Chico Buarque apresenta uma modalidade de relação homem-mulher, que se situaria, num exercício de deslocamento, na Grécia Antiga. Com uma boa dose de veracidade histórica, aliás, diga-se de passagem, pelo que se conhece, documentalmente, da vida das mulheres reclusas no gineceu (espaço a elas reservado numa moradia grega).
Mas o que a transposição feita por Chico Buarque para esse universo desvenda, num registro irônico, é a força do patriarcalismo atual (que, no Brasil, é potencializado pelo sistema escravagista que nos formou desde a Colônia). Pois bem, no patriarcalismo, um sistema de dominação entranhado no ethos brasileiro, proliferam mecanismos de controle sobre as mulheres, calcados na posse e no direito de propriedade sobre o corpo feminino.
Há 50 anos, Chico Buarque , nessa linguagem indireta que é a ironia, apontava em “Mulheres de Atenas” como o patriarcado, alimentado pela submissão de mulheres que “têm medo apenas” e “não fazem cena”, é capaz de agir. Ele mostrava mulheres que “quando fustigadas não choram / se ajoelham, pedem, imploram/mais duras penas / cadenas.” O passo que faltou explicitar é o quanto esse mecanismo cria condições para o feminicídio. De fato, como se vê desde sempre, mas com uma frequência assustadora na atualidade, quando o patriarcado é contestado, quando o parceiro é desafiado — pela autonomia da mulher, pela recusa em se submeter ou pelo término de um relacionamento — , a violência extrema surge como uma forma de “punir” a desobediência e reafirmar a dominação. Reitero, uma vez mais: o patriarcalismo exacerbado que povoa os versos de “Mulheres de Atenas” está à raiz dos assassinatos de mulheres brasileiras por questão de gênero, numa das taxas mais altas entre todos os países, em detrimento de termos uma legislação elogiada pelo mundo, que é a Lei Maria da Penha.
E a Poesia é arma de denúncia.
Notas de rodapé
1. “Helênico” ou “heleno” vem de “Helas” = Grécia.
2. Num jogo de palavras, em que a ambiguidade enriquece o verso: Helena é a rainha de Esparta cujo rapto provocou a guerra de Tróia, da Ilíada, mas “helena” é o termo feminino que significa “grega”.
3. Levando-se em consideração que a Lei Maria da Penha (que cria mecanismos para coibir a violência doméstica contra a mulher, e cujo nome é o de uma mulher que ficou tetraplégica por conta de uma tentativa de assassinato, mas denunciou o próprio marido) foi promulgada em 2006 , enquanto a canção “Mulheres de Atenas” é de 1976.
Mas, irônicamente, a palavra “Penha” tem um rima toante (que é a repetição da vogal tônica, no caso o
-e- anasalado) incidindo na grande maioria dos termos da canção, acima parcialmente assinalados. Segue aqui o elenco completo das palavras que rimam: Atenas, pequenas Helenas, plenas, melenas, morenas, cadenas, penas, sirenas, quarentenas, obscenas, falenas, cenas, apenas, novenas, serenas.


