Assis Valente compôs sucessos de Carmen Miranda e música natalina

Samba

*por Raphael Vidigal

“uns anjos, outros palhaços…
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.” Cecília Meireles

Artista de circo é difícil de achar. Artista espontâneo, que não toca instrumento e sabe rimar letra com melodia. Artista que faz arte até de dentadura, e é desenhista de mão cheia, embora os bolsos permaneçam vazios. Artista de circo desequilibra na corda bamba, como quem disfarça estar em perfeito estado de alegria, acostumado com tristezas natalinas. Assis Valente teve coração de artista e na Praia do Russel morreu em público. O povo cantou sua travessia: “Brasil Pandeiro”, “Uva de Caminhão”, “Fez bobagem”, “Camisa listrada”, provam a eternidade do artista de circo.

“Tem Francesa no Morro” (samba, 1932) – Assis Valente
No embalo do sucesso da música de Lamartine, o baiano de Santo Amaro, Assis Valente, radicado no Rio de Janeiro, também resolveu dar o seu pitaco sobre a questão do estrangeirismo em terras tupiniquins, desta vez a bordo de um autêntico samba. “Tem Francesa no Morro”, samba de 1932 lançado pela vedete de conhecido temperamento forte Araci Cortes, não denunciava a presença de uma moça estrangeira na favela, mas, sim, o modismo entre a burguesia de acrescentar palavras afrancesadas a seu vocabulário, tudo isto de uma maneira expressamente afetada e macarrônica, da qual Assis tirava um tremendo sarro.

“Good-Bye” (marchinha, 1933) – Assis Valente
Não contente em debochar do uso frequente do francês entre seus compatriotas, Assis Valente compôs especialmente para Carmen Miranda, sua musa número um, “Good-Bye”, em ritmo de marchinha de carnaval. Como a anterior, a canção também fez sucesso no rádio e entre os foliões, sagrando-se como o segundo êxito da carreira de seu compositor. A letra era direta, sem firulas: “Deixa a mania do inglês/ É tão feio pra você/ Moreno frajola que nunca frequentou/ As aulas da escola”. Para arrematar, expunha a presença desse estrangeirismo até no nome da companhia de energia elétrica do Rio: “Lá no morro só se usa a luz da Light”.

Boas Festas (marcha natalina, 1933) – Assis Valente
A canção natalina de maior sucesso nacional em todos os tempos é a triste constatação da solidão feita por um melancólico Assis Valente. Nascido no interior da Bahia, o compositor morava no Rio de Janeiro no Natal de 1932 quando teve inspiração para compor a música. Gravada um ano depois por Carlos Galhardo, com acompanhamento da Orquestra Diabos do Céu, regida e arranjada por Pixinguinha, faria sucesso inúmeras vezes nas vozes de Maria Bethânia, Roberto Carlos, Luiz Melodia e mais recentemente o grupo mineiro Pato Fu. Em versos, Assis Valente declara seu pedido não atendido por Papai Noel, pois para ele a “felicidade é brinquedo que não tem”.

Cai, cai balão (marcha junina, 1933) – Assis Valente
As festas juninas brasileiras também tiveram a intervenção pontual de Assis Valente. Para a comemoração do mês de frio ele compôs a suave marcha “Cai, cai balão”, lançada por Francisco Alves e Aurora Miranda no ano de 1933. Os versos lançam enredo de uma sagaz sabedoria popular: “quem sobe muito, cai depressa sem sentir”, e expressam um teor implícito na personalidade de Assis: a desconfiança das glórias, que segundo o próprio, numa explicação a Ary Barroso de uma das tentativas de suicídio, não “resgatam letras”.

“Minha Embaixada Chegou” (samba, 1934) – Assis Valente
Ao escolher uma música de Assis Valente lançada pela Pequena Notável, Carmen Miranda, para abrir e encerrar a estreia nacional da turnê de “Caravanas”, Chico Buarque concedeu espaço de destaque para a única canção alheia dentro do repertório que enfileirou 30 números, incluindo um duplo bis. A eleita, aliás, havia sido interpretada por Nara Leão e Maria Bethânia no longa-metragem “Quando o Carnaval Chegar”, que o cantor protagonizou ao lado das amigas em 1972. Chico estava ali “pra na batucada desacatar”, como convocam os versos de “Minha Embaixada Chegou”, o samba de Valente que ecoou pela primeira vez nos idos de 30, com fé na vida.

Maria Boa (samba, 1935) – Assis Valente
O primeiro sucesso de Assis Valente registrado por um grupo vocal foi o samba “Maria Boa”. Lançado pelo “Bando da Lua” no carnaval de 1935 ele acompanhou os foliões com a mesma alegria que o grupo iria acompanhar Carmen Miranda, musa inspiradora para quem Assis dedicou vários versos posteriores. A letra esbanja a sorte do autor de ter se encontrado com a Maria do título, que segundo ele, não ia “com a cara do homem quem tem a falinha macia”. Em 2001, Ney Matogrosso a regravou no álbum “Batuque”.

“Mangueira” (samba, 1935) – Assis Valente e Zequinha Reis
Bastaram menos de sete anos para que a Mangueira recebesse a sua primeira homenagem em forma de canção. Data de 1935 a música intitulada apenas como “Mangueira”, parceria do baiano Assis Valente com o carioca Zequinha Reis. Lançada pelo Bando da Lua, a música foi repisada com sucesso por Elis Regina, Elizeth Cardoso, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida, Célia, Zé Renato, Dilermando Pinheiro e o grupo Demônios da Garoa, entre vários outros. Seus versos iniciais são definitivos: “Não há, nem pode haver/ Como Mangueira não há/ O samba vem de lá/ A alegria também/ Morena faceira, só Mangueira tem”.

“Janette” (marcha, 1936) – Assis Valente e Lamartine Babo
O título da canção já diz tudo. “Canção para Inglês Ver” lança mão do espírito zombeteiro de Lamartine Babo, por meio de uma expressão que se tornou sinônimo de enganação, manobra ilusória. Lançada por Lamartine e regravada por Joel de Almeida, esse foxtrote ganhou uma versão impagável do conjunto As Frenéticas, no álbum “Babando Lamartine”, homenagem de 1980 ao compositor. A letra tira sarro e faz troça do deslumbramento dos brasileiros com o idioma estrangeiro, valendo-se do melhor estilo Lamartine, que rima “I Love You” com “Itapiru” e “Independence Day” com “Me Estrepei”. Já na marcha “Janette”, parceria com Assis Valente, de 1936, os alvos são franceses.

“Alegria” (samba, 1937) – Assis Valente e Durval Maia
O que diferencia Orlando Silva de seus pares é a capacidade de unir força e suavidade na interpretação. Essa característica pode ser conferida nas interpretações “doces” de seus maiores sucessos, que correspondem ao período auge do cantor. “Rosa”, “Carinhoso” e, sobretudo, “Nada Além”, onde acrescenta murmúrios chorosos ao final da letra. Orlando, que foi também conhecido como “Divino”, não se absteve de cantar diversos gêneros, e com incrível aclamação popular, comprovando o talento em mais de uma categoria. “Alegria”, samba de Assis Valente e Durval Maia, uma ode ao prazer, também ganhou os contornos suaves da voz de Orlando Silva, em 1937, com categoria.

Camisa listrada (samba-choro, 1938) – Assis Valente
A camisa presente nas passarelas de rua do carnaval de 1938 foi a listrada de Assis Valente. Nela é possível perceber o desespero da mulher que vê o seu homem desfilar na avenida vestindo suas roupas, sua saia e sua combinação. A música é uma combinação entre alegria e tristeza, e mostra de forma debochada e simples o contraste entre a fantasia do homem que sai para se divertir e a preocupação da mulher que assiste àquilo com ares de repreensão. A música retrata o descompasso do amor entre a mulher que sofre em vão e o homem que vai à folia do carnaval. É um apelo que a mulher faz para que seu homem não se fantasie.

…E o mundo não se acabou (samba-choro, 1938) – Assis Valente
Depois do estouro de “Camisa listrada”, Carmen Miranda gravou outra jóia do repertório de Assis Valente, no mesmo ano de 1938. “E o mundo não se acabou” é um samba-choro que brinca com a possibilidade milenar do fim do mundo. Alardeado por boatos de nova guerra mundial e coalizão de cometas contra a Terra, o caso virou gostosa música que premeditava o arrependimento daqueles que acreditavam no fim, caso a confirmação não viesse: “beijei a boca de quem não devia, peguei na mão de quem não conhecia, e o tal do mundo não se acabou”.

Uva de caminhão (samba-revista, 1939) – Assis Valente
A vida de Assis Valente foi cercada de polêmicas e contradições. Muitos especulam sobre provável homossexualidade reprimida e gastos com amantes que o levaram ao endividamento, inclusive pessoas próximas, como a cantora Marlene que gravou o primeiro LP só com músicas de Assis, e seus biógrafos Francisco Nunes Silva e Dulcinéa Nunes Gomes. Uma das músicas de seu repertório que desperta interpretações controversas é o samba-revista “Uva de caminhão”. Segundo o jornalista Moacyr Andrade, a iminente ingenuidade da recitação de sucessos carnavalescos como “Florisbela”, “Flauta de Bambu”, “Pirulito” e “A Pensão da Dona Estela”, escondem a intenção do autor de falar sobre gravidez e aborto. Já para o pesquisador musical Rodrigo Faour, a música explicita a confirmação dos desejos homossexuais do compositor. Lançada mais uma vez por Carmen Miranda, “Uva de Caminhão” foi o último sucesso da dupla antes da Pequena Notável embarcar para os Estados Unidos, em 1939.

Recenseamento (samba, 1940) – Assis Valente
A última música de Assis Valente gravada por Carmen Miranda foi o samba “Recenseamento”, em 1940. Nele a história verídica do censo geral determinado por Getúlio Vargas servia de mote para a crônica sentimental do compositor, que aproveitava o tema para dar o seu pitaco irreverente sobre a medida. E a favela, que já lhe prestara homenagens com o morro de Mangueira a cantar suas músicas, era o plano de fundo ideal, na voz da moradora que listava seus bens: céu azul, Pão de Açúcar sem farelo, e outros.

Brasil Pandeiro (samba, 1941) – Assis Valente
Acarajé, cuscuz e abará, todos esses pratos preparados com o molho da baiana, fazem com que o Tio Sam do samba de Assis Valente não resista ao sabor da comida e do samba brasileiro. Composto em 1941, “Brasil Pandeiro” dedica seus versos a cantar as delícias do Brasil, como seu samba, seu terreiro, sua gente bronzeada e sua rica culinária, que desperta até o interesse dos distantes norte-americanos. A música havia sido feita para Carmen Miranda, espécie de amor platônico de Assis Valente, que acabou recusando, supostamente por possuir versos que exaltavam a ela própria. Por conta disso, foi lançada pelos “Anjos do Inferno”, grupo vocal que emplacaria diversos êxitos da lavra do compositor, e mais tarde renovada na interpretação dos “Novos Baianos”, em 1972.

Fez bobagem (samba, 1942) – Assis Valente
Um mês depois do lançamento de “Brasil Pandeiro”, Assis Valente atirou-se do Corcovado e ficou preso em uma árvore, o que salvou sua vida do suicídio. Naquele mesmo ano, em janeiro, havia nascido sua única filha, Nara, fruto do casamento com Nadyle da Silva, 15 anos mais nova. O casamento não durou muito tempo, ao contrário da relação com a filha, que teve o nome tatuado no corpo do pai, na época considerada uma subversão. Os desentendimentos amorosos foram mais uma vez retratados em música por Assis, no ano de 1942, em samba intitulado “Fez bobagem”, lançado por Aracy de Almeida. A letra escancarava o desacordo de um enciumado triângulo amoroso, e recebeu versões de Elza Soares, Teresa Cristina e Caetano Veloso. A dor trazida por Assis era dedilhada em versos: “dá vontade de chorar, e de morrer”.

Boneca de pano (samba, 1950) – Assis Valente
O derradeiro sucesso popular de Assis Valente foi o samba “Boneca de pano”, gravado pelos “Quatro Ases e um Coringa”, em 1950. Ele que estava acostumado a portar sempre foto e caneta para distribuir autógrafos já não convivia com o sucesso de perto, devido à época que se abria para a bossa nova na canção brasileira. A música trazia o relato de uma vivência de Assis, como era por costume em suas letras, o encontro com uma moça da Lapa que tivera trágico final. Como viria a acontecer com o próprio autor, que deixou órfã de seu talento a arte brasileira de inventar melodias e versos, por decisão própria, diante do espanto admirado daqueles que presenciaram sua essência musical. 100 anos depois de seu nascimento, foi-se o espanto, permanece a admiração.

Lido na Rádio Itatiaia por Acir Antão dias 20/03/2011 e 25/03/2012.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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