Mauro Zockratto homenageia Ataulfo Alves com sucessos e lados B

*Raphael Vidigal Aroeira

Já faz mais de meio século que Ataulfo Alves (1909-1969) compôs “Ai Que Saudades da Amélia”, em parceria com Mário Lago (1911-2002), e “Meus Tempos de Criança”, do famoso verso “que saudades da professorinha/que me ensinou o bê-á-bá”, mas até hoje Mauro Zockratto atende pedidos para repetir a dose desses sucessos que o tempo tratou de conservar, a despeito de seus discursos serem colocados à prova por gerações que se insurgem contra nosso machismo corrente. Seja em ambientes distintos, num simples botequim, “das rodas de samba dos subúrbios aos salões de classes economicamente abastadas”, esse apelo se repete: “Canta ‘Amélia’… Canta a ‘Professorinha’…”.

Zockratto não se faz de rogado, muito pelo contrário. “Ataulfo Alves tem a importância dos grandes mestres do samba que ficaram imortais na história do grande cancioneiro da música popular brasileira”, hiperboliza. E vai além: “A música desse gênio supera qualquer juízo por se tratar de um trabalho que lida com a verdade, com a realidade e uma simplicidade que não há como não se render a tanto encanto e magnitude”. Por essas e outras, o cantor escolheu o mineiro de Miraí, criado na Zona da Mata, para homenagear no Sarau Minas Tênis Clube, onde ele se apresenta no próximo dia 10 de outubro, uma segunda-feira. Os clássicos do compositor estão garantidos, e também lados B.

Repertório. Sucessos que continuam na lembrança do povo, e belos temas pouco lembrados, ou até mesmo esquecidos. Essa é a receita que conduz o repertório preparado por Zockratto. Uma das novidades fica a cargo dos sambas de encomenda, que serviram de trilha para a relação conflituosa entre a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972), ícone da era de ouro do rádio, e o compositor Herivelto Martins (1912-1992), e que agitaram as manchetes das revistas de fofoca durante a década de 1950. O desenlace do casamento se deu através de músicas como “Errei Sim” e “Fim de Comédia”, preciosidades de Ataulfo, que Zockratto ressalta como “sambas bem elaborados”. Com razão.

A primeira vez que ele se encontrou com a obra do criador de “Atire a Primeira Pedra”, “Na Cadência do Samba”, “Laranja Madura”, “Leva Meu Samba”, “O Bonde de São Januário”, “Pois É”, “Mulata Assanhada”, dentre outros, gravados por Sandra de Sá, Thiaguinho, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Cássia Eller e Elza Soares, foi através da voz de outra conterrânea, a mineira Clara Nunes (1942-1983). “Noite de Carnaval e eu, ainda bem garoto, em companhia da minha mãe e irmãos, passeando pelo centro da cidade de Belo Horizonte, ao som do primeiro samba de sucesso da Clara”, rememora. Tratava-se de “Você Passa Eu Acho Graça”, feito especialmente para a cantora, no ano 1968.

Memória. O samba foi assinado em parceria com Carlos Imperial, o controvertido mandachuva da Jovem Guarda que atuou em chanchadas e no Carnaval carioca, mas até hoje comenta-se que a composição era apenas de Ataulfo, por suas próprias características poéticas e melódicas e pela fama do outro de se apropriar de canções alheias. “E agora, você passa, eu acho graça/ Nessa vida tudo passa/ E você também passou”, dizem os versos. “A importância de cantar Ataulfo é reafirmar a qualidade melódica, rítmica e poética executada nos meios de comunicação para o povo”, sublinha Zockratto. Outro ponto diz respeito ao nosso racismo estrutural e à força da cultura negra.

O próprio Ataulfo, um músico negro, conhecido pela elegância com que se vestia, assimilou o discurso racista permitido e incentivado em sua época, como se constata no hit “Mulata Assanhada”, em que ele aventa a possibilidade da volta da escravidão, numa espécie de trocadilho sobre a possessão amorosa. “Eu acredito que o negro, independentemente de onde atua no mercado, deve ser evidenciado com força nesses tempos de luta contra o preconceito em geral”, sustenta Zockratto. “O tempo exige isso de nós em relação a todas as classes discriminadas na história da Humanidade. Na arte, onde eu atuo e já fui discriminado também pelo fato de ser artista, está provada a importância gigantesca desse envolvimento do negro”, completa ele.

Legado. “O que seria da Cultura sem artistas do quilate de Pixinguinha, Louis Armstrong, Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Alaíde Costa, Naná Vasconcelos e tantos outros?”, questiona Zockratto, pegando exemplos de dentro e de fora, abrindo um parêntese para demais nomes de pessoas negras que se eternizaram nos mais diversos setores da expressão artística e cultural. Para saudar esse legado, o intérprete traz à baila o encontro da sua própria história com a de um ícone único na música brasileira, pela dicção particular com que aderiu ao samba carioca sem perder a aquiescência da mineiridade montanhesca. E ele estava em casa quando foi parabenizado por tal conquista.

Ainda sem saber o motivo da congratulação do companheiro de quarteto, aceitou o elogio. “Foi uma emoção imensa quando ele me deu a notícia”, diz. “Estou nessa estrada há mais de três décadas e foram raras as oportunidades que tive em ser contemplado num projeto desse porte”, constata. Quando subir ao palco do Sarau Minas Tênis Clube, Zockratto levará consigo lembranças que acumulou desde os tempos de criança, com saudades da Amélia e da professorinha ginasial, quando era apenas um garoto ouvindo Clara Nunes ecoar um potente samba de Carnaval. Agora, é a vez da sua folia. Com samba: “Tanta volta o mundo dá…/ Nesse mundo eu já rodei…/ Voltei ao mesmo lugar/ Onde um dia eu encontrei…/ Minha musa, minha lira, minha doce inspiração…”.

Serviço.
O quê. Mauro Zockratto canta Ataulfo Alves no Sarau Minas Tênis Clube
Quando. Segunda, dia 10 de outubro, às 20h
Onde. Centro Cultural Unimed-BH Minas (rua da Bahia, 2.244, Lourdes)
Quanto. R$5 (inteira) na bilheteria do teatro ou pelo www.eventim.com.br

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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