Violeta Lara homenageia Gilberto Gil no Sarau Minas Tênis Clube

*Raphael Vidigal Aroeira

Chega a ser estarrecedor o áudio do presidente do clube gaúcho onde o cantor Seu Jorge foi vítima de racismo na última sexta-feira, mas nada mais no Brasil de 2022 parece ter a capacidade de estarrecer, comover ou sensibilizar as pessoas. “Fiquei chocado com o jeito que o nosso artista chegou, porque o material de divulgação que nos forneceram era o Seu Jorge com um terno. E ele chegou com aquele moletom, todo dissociado do clima do evento”, reclama.

O que se viu a seguir foi muito mais grave do que a diferença na vestimenta que agradaria ao contratador, como se, numa lógica de compra e venda, ele se tornasse dono do contratado. Após um discurso de Seu Jorge contra a redução da maioridade penal, pessoas na plateia ofenderam o músico com xingamentos e imitaram macacos. A casa de shows colocou a culpa em Seu Jorge, ao alegar que ele teria se posicionado politicamente num momento de polarização.

“Estamos vivendo um momento crítico com o governo atual do nosso país, representado por um presidente extremamente preconceituoso, que carrega consigo muitos brasileiros que compartilham do mesmo pensamento”, observa a cantora Violeta Lara. Nesta segunda (24), ela homenageia Gilberto Gil no Sarau Minas Tênis Clube, um artista negro que acaba de completar 80 anos, e cuja trajetória jamais dissociou a música e, por consequência, a arte da política.

“Acredito ser de grande importância ressaltar isto. A cultura negra, infelizmente, é muito menosprezada na nossa sociedade e Gil sempre contribuiu de forma significativa na luta pela inserção social dos negros”, sublinha Violeta. Sempre engajado politicamente, Gil foi vereador na Câmara Municipal de Salvador pelo Partido Verde, de 1989 a 1992 e, em 2003, tomou posse no cargo de Ministro da Cultura do governo Lula.

Logo, a porção-política de Gil também será contemplada no repertório, mas não apenas, abrindo o leque para canções sobre amor, espiritualidade e ancestralidade, que Violeta acredita “serem assuntos de grande importância para a reflexão de cada um de nós”. Além da identificação e da emoção, a cantora buscou músicas que passam por diferentes ritmos brasileiros, outra característica da imensa e plural obra de Gil.

Canções como “Esotérico”, “Se Eu Quiser Falar com Deus”, “Amor Até o Fim”, “Barato Total”, “Andar com Fé”, “Estrela” e “Expresso 2222” vão marcar presença, além de algumas menos bisadas ao longo dos anos, incluindo do último disco de inéditas do compositor, “OK, OK, OK”, lançado no ano de 2018.

“Gilberto Gil é uma das maiores personalidades da música brasileira, tendo sua obra reconhecida não só nacionalmente, como também mundialmente. É um artista completo, um compositor sensível, grande cantor e instrumentista brilhante, além de protagonista de um dos maiores movimentos da música brasileira”, sustenta.

Violeta se refere à Tropicália, que, no final dos anos 1960, abalou as estruturas da música brasileira com uma absorção crítica da cultura de massa, e legou clássicos como “Domingo no Parque”, “Panis Et Circenses”, “Geleia Geral”, “Bat Macumba”, dentre outros. A primeira vez que Violeta ouviu Gil foi através dos pais, também ligados à música.

“Palco” a pegou de jeito, principalmente pela levada, “que me fez mexer o corpo e sentir uma energia deliciosa”, relembra. A música foi lançada em 1981, no disco “Luar”, e retificou o talento de Gil para poetizar o mais reles cotidiano. “Subo nesse palco/ Minha alma cheira a talco/ Como bumbum de bebê”, dizem os versos, prenhes de existencialismo.

Ainda bem criança, Violeta se deparou com a interpretação de Elis Regina para “Ladeira da Preguiça”, originalmente lançada em 1973, no icônico LP “Elis”. “E esta foi arrebatadora”. “Fui logo procurar saber de quem era aquela canção que me tocou tanto e, claro, era de Gil. A partir daí, fui conhecer mais de sua obra e me apaixonei perdidamente”, conta a intérprete.

Ela estava em casa quando recebeu a notícia de ter sido selecionada para o Sarau Minas Tênis Clube, por meio de uma publicação no Instagram. “Demorei um tempinho pra acreditar, afinal sempre foi um sonho para mim fazer um show em homenagem a este grande artista”. Violeta tem agora a oportunidade de dividir esse sonho com o público, e de sonhar com dias melhores, mais fraternos e coloridos para o Brasil.

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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