Margareth Menezes leva a sua afro-urbanidade ao projeto ‘Salve Rainhas’

*Raphael Vidigal Aroeira

A vitrolinha ecoava a Jovem Guarda, enquanto o avô e os tios tocavam em um regional familiar. É desse ambiente, trespassado por uma geografia bastante específica, que a cantora Margareth Menezes recolhe as suas primeiras lembranças musicais. “Itapagipana, soteropolitana, baiana”, Margareth passava as férias em Ilha de Maré, um quilombo afro-indígena onde a mãe nasceu, que ela descreve como “uma linda ilha perto de Salvador”, cidade natal da cantora.

“Essa questão da música me toca desde sempre, além do lugar onde nasci”, reforça Margareth, deixando claro que, para ela, música e espaço não se dividem. A península e a beira-mar, além da avenida Luiz Tarquínio, o Largo de Roma e a Madragoa foram lugares decisivos na formação musical de Margareth, que hoje contabiliza 35 anos de carreira ininterrupta, com o apelo e o suor do povo. “Toda essa área que eu citei tem muita produção popular, e a Bahia, o Brasil, o nosso povo tem uma ligação nata com a música”, garante ela.

Margareth recorda essas e outras histórias no projeto musical “Salve Rainhas”, idealizado por Pedrinho Madeira, com condução de entrevistas da jornalista Camila de Ávila, em apresentação única e aguardada nesta quinta-feira (10). “Agradeço as deferências que me fazem, o que procuro fazer é representar bem a música com o talento que Deus me deu, e marcar esse lugar da música afro-brasileira e afro-contemporânea, com toda a nossa ancestralidade e urbanidade”, situa. O estouro de Margareth vem de 1987, quando ela cantou “Faraó (Divindade do Egito)”, ao lado de Djalma de Oliveira. A música virou hit.

Com mais de 100 mil cópias vendidas em menos de uma semana, se tornou o primeiro samba-reggae gravado no Brasil, composto por Luciano Gomes, e recebeu regravações de Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Olodum e Banda Mel, que vieram atrás do embalo pioneiro de Margareth. “Sou essa figura afro-urbana que atua na pauta da identidade musical brasileira, com toda a sua diversidade, os cruzamentos de claves, as influências culturais, os elementos trazidos pelos africanos que nos influenciam bastante. Então, o que eu puder fazer sobre isso, sem perder a minha contemporaneidade, será um prazer”, diz.

Líder do movimento Afropop Brasileiro, Margareth está longe de se escorar em seu passado de glórias. No início do ano, ela lançou a música “Terra Aféfé”, parceria com Carlinhos Brown que também ganhou videoclipe. Agora, a intenção é dar “uma azeitada” na mais recente novidade, já que, segundo ela, a canção tem a pegada do verão que se aproxima. Para o próximo ano, ela também planeja um disco de inéditas, o primeiro desde “Autêntica”, de 2019. Hoje uma veterana da música brasileira, a artista de 60 anos e fôlego de 30 tem se habituado a realizar colaborações com nomes de uma geração mais nova. Ela cantou, por exemplo, com a conterrânea Agnes Nunes, de 19 anos…

“O que tem me chamado atenção é a liberdade que o artista tem hoje para mostrar o seu trabalho, sem depender muito de gravadora. Hoje existe essa mecânica de você criar a música, gravar, botar numa plataforma e descobrir novos caminhos. Existem várias propostas com o advento das ferramentas digitais, que são muito potentes”, observa a intérprete, que dá um exemplo visto a olho nu com essa mudança. “A linguagem audiovisual se colocou como a nova maneira de divulgar a música, ela já precisa vir envelopada com a imagem, o que fortaleceu muito a indústria do audiovisual no Brasil e no mundo. Hoje, não se pensa mais em música sem você pensar em uma imagem pra ela”, destaca Margareth, que começou a carreira como atriz, no Teatro Vila Velha, em Salvador, até ser definitivamente conquistada pela deusa da música.

Para Margareth, as plataformas digitais impõem uma revolução que já está estabelecida, “o que potencializa todo esse mercado e abre várias frentes para novos profissionais”. “Acho muito positivo, tem muita gente fazendo coisa boa no Brasil inteiro, com festivais que abraçam a diversidade, esse é o caminho. A chegada dessa integração digital facilitou muito. Claro que ainda precisamos melhorar a questão do recolhimento e reconhecimento dos direitos autorais, mas, pra quem gosta de música popular, é um universo muito potente”, finaliza.

Serviço.
O quê. Margareth Menezes se apresenta no projeto “Salve Rainhas”
Quando. Nesta quinta (10), às 20h
Onde. Grande Teatro SESC Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro)
Quanto. De R$40 (meia) a R$ 120 (inteira)

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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