75 anos de Lula, ex-presidente do Brasil, em 13 músicas brasileiras

*por Raphael Vidigal

“Ela nos desafia, Cavaleiro.
E nos desafiará, mesmo ao subir
Ao cadafalso. É um coração altivo.
Inquebrantável. Surpreendeu-a acaso
A sentença de morte? Demudou-se-lhe
A cor ou derramou alguma lágrima?
Não fez apelo ao nosso dó. Conhece
Bem a irresolução da soberana,
E o nosso medo é que lhe dá a coragem.” Friedrich Schiller

Do ano 4.000 antes de Cristo até os dias de hoje, Pelé, Paulo Coelho e Luiz Inácio Lula da Silva estão entre os brasileiros mais conhecidos nesse mundo afora. A conclusão é de um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, divulgado em junho de 2019. Controversos, os heróis nacionais movimentam a massa. Parece que tudo a envolver o ex-presidente Lula passa pela megalomania, a começar pela frase que ele transformou em mantra durante os oitos anos em que governou o Brasil: “Nunca antes na história desse país…”.

Primeiro representante da classe trabalhadora a ascender a tal posto em um país marcado pela cultura escravocrata e com preconceitos arraigados contra os mais pobres, Lula deixou a presidência com 87% de aprovação, um recorde absoluto em todas as democracias ocidentais. Nesta terça (27), o homem que desperta amor e ódio no polarizado cenário político nacional, chega a 75 anos, e, como figura histórica que é, aparece cantado em verso e prosa pelos compositores da nossa música popular. Elegemos 13, como o PT, o partido da estrela vermelha.

“Lula Lá” (jingle, 1989) – Hilton Acioli
Após duas décadas de ditadura militar, o Brasil podia votar novamente para presidente em 1989. A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que acabou derrotado no segundo turno para Fernando Collor, encomendou ao compositor Hilton Acioli um jingle, cuja ideia era brincar com o nome do candidato e usar o “Lula Lá”. Acioli anotou a ideia por educação e, depois, concluiu que não havia nada melhor. No videoclipe de lançamento, dirigido pelo ator Paulo José, participaram Chico Buarque, Marieta Severo, Gal Costa, Hugo Carvana, Beth Carvalho, Gilberto Gil, Aracy Balabanian, Djavan e outras estrelas da constelação popular. Sucesso absoluto, a canção atravessou fronteiras e voltou à baila em 2002, quando Lula foi eleito, e 2010, ano em que ele passou o bastão para a sucessora Dilma Rousseff, com regência de Wagner Tiso, que adaptou o refrão para “Dilma Lá”. A canção ficou conhecida como “Sem Medo de Ser Feliz”.

“Luiz Inácio [300 Picaretas]” (reggae, 1995) – Herbert Vianna
Em 1993, durante o governo de Itamar Franco – que assumiu o posto de Fernando Collor após esse sofrer um processo de impeachment –, Lula, líder do Partido dos Trabalhadores (PT), com histórico no operariado paulista e no sindicalismo nacional, representava a esperança de um país justo, com melhor distribuição de renda e cuja bandeira principal era a da honestidade. Por isso, quando bradou contra escândalos de corrupção já bem comuns naquela época, além da apropriação indevida de concessões de rádio e televisão por parte de políticos citados na letra, ele acabou homenageado por Herbert Vianna, vocalista do grupo Paralamas do Sucesso. A expressão “são 300 picaretas com anel de doutor” se tornou célebre. A composição, com influências do reggae, do ska e da MPB, aposta numa característica do rap, a da letra falada e incisiva. Na ocasião, a canção foi censurada durante um show dos Paralamas em Brasília.

“A Marchinha Psicótica de Dr. Soup” (vanguarda, 2007) – Júpiter Maçã
Rogério Skylab já cansou de se declarar “um cadáver dentro da música brasileira”, frase que ele justifica com o fato de sua extensa obra jamais ter despertado o interesse de intérpretes relevantes. Sem aderir completamente a nenhum movimento ou gênero, mantendo uma postura crítica diante desse cenário, o músico admite pontos de identificação com uma vasta e diversificada gama de artistas, dentre eles Tom Zé e Décio Pignatari. Com “A Marchinha Psicótica de Dr. Soup”, o músico se presta ao papel dos intérpretes que renegaram sua obra, e, mais do que homenagear Júpiter Maçã (1968-2015), coloca o dedo na ferida do estapafúrdio cenário político que tomou conta do país. Por fim, ele dá vazão a um grito incontido na garganta: “Lula Livre!”. Lançada pelo autor em 2007, a canção foi regravada por Skylab em 2019, quando Lula estava encarcerado em Curitiba acusado de corrupção e lavagem de dinheiro.

“Lulampião e Marisa Bonita” (cordel, 2016) – Maurício Baia, Gustavo Macacko e Gabriel Moura
Bastou Dilma Rousseff ser reeleita em um acirrado segundo turno contra Aécio Neves, em outubro de 2014, para a campanha do candidato do PSDB pedir recontagem de votos, demonstrando pouca aceitação da derrota. Dilma resistiu no poder até 2016, quando se confirmou a sua deposição da presidência, com a acusação formal de ter praticado operações de crédito sem a anuência do Congresso. Contribuiu para o mal estar popular as divulgações em série da Lava Jato, operação que se dizia contra a corrupção no país e mirava os caciques petistas, com especial predileção pela figura de Lula. A perseguição inspirou o baiano Maurício Baia a compor, com Gustavo Macacko e Gabriel Moura, o cordel “Lulampião e Marisa Bonita”, que comparava as trajetórias do ex-presidente e da antiga primeira-dama à de seus conterrâneos pernambucanos, Lampião e Maria Bonita. Em 2017, Marisa morreu vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).

“Lula Livre” (samba, 2018) – Claudinho Guimarães
Em abril de 2018, Lula liderava, com ampla vantagem sobre seus adversários, as pesquisas para intenção de voto à presidência da República, quando o então juiz Sergio Moro decretou a sua prisão. Assim que a ordem foi emitida, o petista retornou ao lugar onde tudo começou, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo, onde recebeu o apoio de lideranças sindicais, partidárias, de correligionários e nomes importantes da cultura e do futebol, dentre eles o técnico Vanderlei Luxemburgo e o rapper Flávio Renegado. A comoção gerada pelo encarceramento do presidente mais popular que o Brasil já teve rendeu homenagens por todo o país. Próxima ao ex-presidente desde as primeiras campanhas eleitorais, a cantora Beth Carvalho seria a escolhida para lançar o samba “Lula Livre”, de autoria de Claudinho Guimarães. A campanha pela libertação duraria até novembro de 2019, quando Lula seria finalmente solto.

“Viverei” (MPB, 2018) – Ana Cañas
Durante o período em que Lula foi mantido preso na sede da Polícia Federal, em Curitiba, um acampamento foi montado em frente ao local. Batizado de Vigília Lula Livre, ele reuniu integrantes do Movimento Sem Terra, lideranças do PT e recebeu, diariamente, a presença de artistas, políticos internacionais e religiosos que foram visitar o ex-presidente na cadeia, como o sambista Martinho da Vila, o vencedor do Prêmio Nobel, Noam Chomsky, o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica e a líder espiritual budista Monja Coen. A cantora Ana Cañas também esteve no local. Uma das primeiras a se dirigir ao acampamento, ela saiu de lá comovida com a situação. O resultado saiu em forma de arte. Com a canção “Viverei”, ela decretava, sem meias palavras: “Podem me julgar além da lei/ Podem me prender, eu andarei/ Podem inventar o que nem sei/ Podem me matar, eu viverei”. O videoclipe foi gravado em 2018, entre São Paulo e Curitiba.

“Meu Primeiro Amor” (balada, 2019) – Lucas Santtana
Lucas Santtana compôs “Meu Primeiro Amor” a pedido da cantora paulista Mariana Aydar, como uma espécie de Romeu & Julieta do sertão brasileiro. Mariana acabou não gravando a música, que acabou lançada pelo próprio Lucas em 2019. Para participar da faixa, ele convidou a pernambucana Duda Beat. A letra entremeia referências românticas e observações sociais. Ao se falar de Brasil, sertão, Nordeste, e, especialmente, Pernambuco, Santtana não poderia deixar de fora a presença de Lula, que, em seu governo de oito anos, revolucionou a histórica mazela da fome e da distribuição de renda no Brasil. “Nasci menino longe da cidade/ No semiárido lá do sertão/ Não tinha água tão pouco comida/ Até que Lula veio e deu a mão”, diz o verso que se refere ao ex-presidente. Nascido em Caetés, no agreste de Pernambuco, Lula, como muitos brasileiros, migrou para o Sul do país ainda na infância, ao lado do pai e da mãe.

“Carcará de Gaiola” (frevo, 2019) – Siba
Com Lula preso, o cantor recifense Siba resgatou uma antiga imagem de resistência do cancioneiro popular para sintetizar a situação do ex-presidente. “Carcará de Gaiola” remete à música “Carcará”, do maranhense João do Vale, que, em 1965, se transformou num grito de rebeldia e luta no histórico espetáculo “Opinião”, dirigido por Augusto Boal, produzido pelo Teatro de Arena e integrantes do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, com dramaturgia de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes. Protagonizado por João do Vale, Zé Kéti e Nara Leão, o elenco ganhou a gana da estreante Maria Bethânia quando Nara saiu. Foi na voz de Bethânia que a música se consagrou. Antes de entoá-la, ela dava dados da desigualdade social no Brasil. O frevo de Siba é igualmente lancinante: “Foi preso, mas eu queria/ Saber porque foi trancado/ (…) Aquele ali, na verdade/ Nem era pra ter voado…”.

“Solta a Jararaca” (marchinha, 2019) – Alexandre Rezende, Bobô da Cuíca e Arnóbio Souza
Em março de 2016, enquanto o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff tramitava na Câmara dos Deputados, a operação Lava Jato, em mais uma de suas ações espetaculosas e midiáticas, levou Lula para depor em uma condução coercitiva sem que o ex-presidente tivesse sequer sido previamente convocado. Mais tarde, áudios divulgados pela Vaza Jato, que recebeu provas das ilegalidades da operação, revelaram que a intenção dos procuradores da Lava Jato era prender Lula já naquele momento, antes mesmo que ele fosse julgado. Após ser liberado, Lula discursou para militantes e cunhou outra frase de impacto: “Se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça. A jararaca está viva como sempre esteve”. A marchinha “Solta a Jararaca”, de Alexandre Rezende, Bobô da Cuíca e Arnóbio Souza alude a esse episódio. Interpretada por Julie Amaral, ela faturou o 2º lugar do Concurso Mestre Jonas.

“Pertinho de Você” (MPB, 2019) – Rodrigo Nunes
A música “Pertinho de Você” foi, literalmente, criada no calor do momento. Composta por Rodrigo Nunes, ela nasceu na Vigília Lula Livre, acampamento montado em frente à sede da Polícia Federal em Curitiba, que esteve com Lula nos 580 dias em que o ex-presidente permaneceu preso. Autor da canção, Rodrigo Nunes é militante do setor de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Sul, uma das bandeiras historicamente ligadas à luta da esquerda e do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil. Um registro da canção mostra os militantes em frente a outra foto de Lula que entrou para a história, a do momento em que, após ter a sua prisão decretada, ele foi carregado e abraçado por milhares de admiradores no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, mostrando, para quem quisesse ver, que não fugiria à luta jamais. E, claro, teria o povo ao seu lado, como sempre.

“Canção Urgente Para Lula” (MPB, 2019) – Danú Gontijo
Quando Vavá, irmão de Lula, morreu em janeiro de 2019, o petista se encontrava preso há quase um ano. O triste fato serviu para deixar demonstrada a mesquinhez daqueles que conduziam o infame cárcere do petista. Eles não permitiram que Lula fosse solto durante algumas horas para comparecer ao velório do irmão. E, a poucas horas do enterro ser consumado e sem tempo hábil para cumprir a decisão, a justiça alegou que Lula poderia velar o irmão em uma dependência do exército, sozinho, sem ser visto por ninguém. Mantendo a dignidade, Lula recusou a cena estapafúrdia. Em abril, a vida do ex-presidente foi acometida por outra tragédia, quando seu neto Arthur, de apenas 7 anos, morreu. A comoção obrigou a Justiça a liberar Lula para o funeral. Danú Gontijo compôs “Canção Urgente Para Lula” em solidariedade à dor de perda tão brutal. Lula compareceu à cerimônia e acenou à multidão que o aguardava no cemitério.

“Canção Pela Libertação” (orquestra, 2019) – Joaquim França e Eduardo Rangel
A pressão pela libertação de Lula aumenta a cada dia, com manifestações em todo o mundo. Uma carta assinada por juízes de diversos países, dentre eles alguns dos mais renomados no combate à corrupção, afirmava que eles estavam chocados com o cárcere e as provas que se tinham usado como justificativa para o feito. No Brasil, o Festival Lula Livre aconteceu em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Porto Alegre e outras, levando ao palco artistas da envergadura de Chico Buarque, Gilberto Gil, Fernanda Takai, Arnaldo Antunes, Chico César, Emicida e outros. O festival, inclusive, teve uma edição em Paris, onde Lula recebeu o título de Cidadão Honorário das mãos da prefeita Anne Hidalgo. Imbuído desse espírito, Joaquim França e Eduardo Rangel compuseram a peça orquestral Canção Pela Libertação, em 2019. Quando Lula foi posto em liberdade, o Papa Francisco o recebeu no Vaticano.

“Pé na Jaca” (marchinha, 2020) – Bento Aroeira e Rubinho do Agogô
Durante a campanha eleitoral de 2018, o senador Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes, presidenciável pelo PDT, se estranhou com apoiadores petistas e disparou: “O Lula tá preso, babaca!”. Da prisão, Lula reagiu com bom humor em uma entrevista, ao dizer: “Eu sei que estou preso, só não precisava chamar os outros de babaca”, e riu. Com a libertação do ex-presidente, o bordão se inverteu. Para completar, o documentário de Petra Costa sobre o impeachment de Dilma, “Democracia em Vertigem”, foi indicado ao Oscar. Os compositores Bento Aroeira e Rubinho do Agogô criaram a marchinha “Pé na Jaca” inspirados por essa trama. A interpretação é de Julie Amaral. Depois de passar 580 dias preso em Curitiba, o ex-presidente Lula foi solto no dia 8 de novembro de 2019, em uma sexta-feira que se tornou histórica para os brasileiros. A música venceu o 1º Concurso de Músicas Satíricas de Ouro Preto.

Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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