10 músicas brasileiras que combatem a violência contra a mulher

*por Raphael Vidigal

“Este corpo é seu corpo, cinzas agora,
mas vivo nos meus olhos, nos meus seios,
na minha garganta, nas minhas coxas.
Você ainda canta em minha mente
como vinho. Você ainda corre em mim
como gravetos nas águas do rio.” Camila Assad

As imagens da audiência de julgamento do crime de estupro contra a jovem Mariana Ferrer, em que o advogado do réu a humilha com insinuações perversas e fotos de redes sociais que ele, em sua “moral ilibada”, considerou ginecológicas, corroboradas pelo silêncio dos demais homens presentes, inclusive aquele que representava a vítima, são tão ou mais estarrecedoras do que a tese apresentada pela procuradoria, que possibilitava o entendimento de “estupro culposo”, esta sentença estapafúrdia acolhida pelo juiz que, trocando em miúdos, procura dizer que o agressor não considerou a sua ação um estupro.

Diante da comoção gerada pelo caso, vêm à memória a alegação de outro juiz, que concedeu prisão domiciliar para a esposa de Fabrício Queiroz – envolvido na denúncia do crime de “rachadinha” no gabinete do senador Flávio Bolsonaro –, para que ela “pudesse cuidar do marido”, como se este fosse um dever inerente à condição de mulher. Cabe lembrar que Flávio é filho do atual presidente da República, condenado em três instâncias pelo crime de incitação ao estupro após repetir no plenário da Câmara dos Deputados, diante de câmeras e microfones, o seguinte: “Não te estupro porque você não merece”.

A frase cretina, em tom de ameaça, não constrangeu os seus eleitores, tampouco a homenagem a Carlos Ustra durante o impeachment de Dilma Rousseff. O militar é o único condenado pela justiça brasileira pelos crimes de tortura durante a ditatura, incluindo práticas de estupro. Numa sociedade essencialmente machista como a brasileira, em que a indignação diante de um crime horrendo como o estupro depende da conveniência e da hipocrisia, com uma tendência canalha a culpabilizar a vítima, é sempre tempo de relembrar canções que combatem de maneira incisiva e firme a violência contra a mulher.

“Mãe, Eu Juro!” (samba, 1957) – Adoniran Barbosa e Noite Ilustrada
A composição “Mãe, Eu Juro”, de 1957, traz em seu registro oficial o nome de dois desconhecidos da música brasileira. Peteleco e Marques Filho eram, na verdade, Adoniran Barbosa e Noite Ilustrada. Acontece que o primeiro tinha por hábito registrar canções em nome de seu cachorro, e, o segundo, era um iniciante que não adotara ainda o nome pelo qual ficaria conhecido como o cantor de sucessos como “Volta por Cima”. Nesta composição, a mãe aparece como confidente de um relacionamento abusivo. A filha promete não mais insistir no caso. O samba revela o ambiente de violência doméstica e o machismo já tão presente àquela época. Lançada por Neyde Fraga, ela foi regravada por Célia.

“Desconstruindo Amélia” (pop rock, 2011) – Pitty e Martin
Um dos grandes clássicos da música brasileira, composto por Mário Lago e Ataulfo Alves, eternizou o estereótipo da mulher resignada e obediente às tarefas do lar. “Ai, Que Saudades da Amélia” foi composto em 1942. No ano de 2011, a baiana roqueira Pitty resolveu levar a protagonista do samba à forra, atualizando a narrativa e dando uma volta no machismo daqueles costumes criados sob uma sociedade patriarcal. “Desconstruindo Amélia”, um pop rock, envereda pelos caminhos da liberdade e independência feminina: “E eis que de repente/ Ela resolve então mudar/ Vira a mesa, assume o jogo/ Faz questão de se cuidar/ Nem serva, nem objeto/ Já não quer ser o outro/ Hoje ela é um também”, dispara.

“Maria da Vila Matilde” (pop rock, 2015) – Douglas Germano
Não é de hoje que Elza Soares representa a mulher sobrevivente, batalhadora, livre, dona de seus desejos e vaidades. Para coroar a carreira da nonagenária intérprete, nada melhor do que a canção “Maria da Vila Matilde”, peça que conjuga samba e música eletrônica, na veia da nova MPB, cheia de modernidade sem esquecer a tradição, bem ao estilo ousado e inquieto de Elza. Denúncia clara à violência contra a mulher, a canção serviu para suscitar debates e cumpriu com sua função social. Mais do que isso, exprimiu a arte de uma mulher talentosa, guerreira, determinada, que não abre mão de seus prazeres. A música ganhou uma versão do bloco feminista Sagrada Profana para o Carnaval de BH.

“Selvática” (punk, 2015) – Karina Buhr, André Lima, Bruno Buarque e Mau
Baiana radicada em Pernambuco, Karina Buhr divulgou uma impactante carta relatando os abusos sexuais que sofreu de um líder religioso em 2019, na esteira das denúncias contra João de Deus que culminaram com a prisão do estuprador charlatão. Em 2015, a artista já havia abalado as estruturas ao lançar o álbum “Selvática”, cuja capa a mostrava segurando uma lâmina com os seios de fora, adornada por badulaques, como uma guerreira tribal. A faixa título ia justamente nessa direção. Com uma batida pesada de punk e versos no formato de um longo testemunho, a canção realiza um périplo pelo histórico de violências às mulheres e parte para o ataque contra os algozes: “Mulheres esbravejam a dor”.

“100% Feminista” (funk, 2016) – MC Carol e Karol Conká
Ícones da nova geração de mulheres empoderadas, representando, cada uma a seu estilo, o reconhecimento em gêneros historicamente fechados a elas no papel de compositoras como o rap e o funk, MC Carol e Karol Conká, negras, faveladas e muito talentosas, uniram forças na música “100% Feminista”, lançado em 2016, cujo título dispensa explicações. A letra traz um pungente relato sobre as violências cotidianas às quais as mulheres são submetidas, em um país que naturaliza crimes como o estupro sob a alegação calhorda de que a vítima provocou a reação masculina: “Presenciei tudo isso dentro da minha família/ Mulher com olho roxo, espancada todo dia”. A música ganhou um vídeo.

“Não É Não” (brega funk, 2016) – Lila e Leo Justi
Nos últimos Carnavais, a campanha “Não É Não” espalhou-se por todo o Brasil, ganhando as ruas de capitais como BH, Recife, Salvador, São Paulo e Vitória. Tudo começou no Rio de Janeiro, quando quatro publicitárias cariocas criaram uma tatuagem temporária com esses dizeres para as mulheres colarem no corpo, com o intuito de se unirem contra o assédio tão comum durante a celebração. É bem possível que a ideia tenha se inspirado na música “Não É Não”, um brega funk de Lila e Leo Justi que aborda justamente esse tema. Protegendo a independência e o poder de escolha na mulher, a música tenta dar um basta a esse tipo de ameaça à integridade da mulher que deseja curtir a folia.

“Dizputa” (MPB, 2016) – Carol Naine
Quando lançou o seu segundo disco, Carol Naine foi indicada ao Prêmio da Música Brasileira na categoria melhor canção com “Dizputa”, e concorreu com Zeca Pagodinho e Tom Zé, que levou o troféu. Na letra da música citada, além do trocadilho, a intérprete tem como arma a própria utilização corrente da expressão. “Na nossa cultura, a palavra ‘puta’ adquiriu um significado comum e ofensivo ao mesmo tempo. Então, eu começo brincando com ela, como se não fosse nada, mas mostro que, no final das contas, é importante se tomar cuidado com a forma como a mulher é tratada na nossa sociedade e o quanto a linguagem tem um papel decisivo nessa história toda”, explicita a compositora.

“Disk Denúncia” (samba, 2016) – Nina Oliveira, Gabrielle Rainer, Gabriela Nunes
Jovem, mas já muito antenada, a cantora e compositora Nina Oliveira resgatou uma personagem emblemática da música brasileira para criar, ao lado de Gabrielle Rainer e Gabriela Nunes, a delicada e, ao mesmo tempo, incisiva canção “Disk Denúncia”. Logo nos primeiros versos, ela se refere a Geni, que na música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, é a prostituta que exprime toda a hipocrisia da moral e dos bons costumes dessa patriarcal sociedade brasileira. A personagem remete, ainda, à trajetória bíblica de Maria Madalena, apedrejada e defendida na rua por Jesus Cristo, que redimiu seus pecados. “Disk Denúncia” ganhou um registro com a participação de Gabi da Pele Preta e emana urgência.

“Respeita” (pop rock, 2017) – Ana Cañas
Ana Cañas não é daquelas que se fazem de rogadas diante das dificuldades. Ao contrário, a cantora costuma assumir suas posições em assuntos espinhosos e tomar a frente de batalha. Mulher consciente, o feminismo é uma de suas bandeiras. Um dos exemplos mais bem acabados é a canção “Respeita”, que ganhou um videoclipe com a participação de outras mulheres de fibra, como Elza Soares, Zélia Duncan, Sophie Charlotte, Andréia Horta e Júlia Lemmertz. Como explicita o título, a canção não pede nada mais do que respeito às mulheres, princípio básico da convivência civilizada que deveria ser um direito de todas. “Ela vai, ela vem/ Meu corpo, minha lei/ (…) Respeita as mina, porra”, desabafa.

“Faminta” (pop rock, 2019) – Flaira Ferro e Igor de Carvalho
Flaira Ferro segura um estilhaço de vidro que reflete a sua própria imagem, enquanto olha desafiadoramente para a frente. A imagem ilustra a capa de “Virada na Jiraya”, segundo disco da cantora pernambucana. A expressão se popularizou como sinônimo de raiva e indignação. Para passar o seu recado, Flaira abre mão dos volteios e não usa meias-palavras, como fica escancarado em “Faminta”. Em 218, ela já havia causado rebuliço com o clipe de “Coisa Mais Bonita”, que mostrava mulheres se masturbando. Na canção mais recente, ela volta a afirmar essa luta: “Eu faço meu trampo direito/ Pra macho dizer que não tô preparada/ (…) Boto a boca no microfone/ Se não me tratar de igual pra igual”.

*Bônus
“S.O.S. Mulher” (pop, 1981) – Vanusa

Em 1999, Vanusa lançou a autobiografia “Ninguém É Mulher Impunemente”, onde revelava agressões sofridas pelo pai e alguns de seus maridos. Casada seis vezes, a cantora paulista sempre levantou a bandeira da independência da mulher e do feminismo em suas canções. Uma das mais emblemáticas nesse quesito é, certamente, “S.O.S. Mulher”. A letra traça um retrato da violência diária a que as mulheres são submetidas no Brasil, muitas vezes presas em relacionamentos abusivos com a condescendência da sociedade, para, em seguida, conclamar as mulheres à luta: “Acorda pra vida e pede socorro/ Nada vale esse jogo/ No sufoco, vale tudo/ Ah, bota a boca no mundo!”.

Foto: Carlos Sales/Divulgação

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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