Crítica: Peça “Cachorro enterrado vivo” contextualiza animalidades

“Palavras de fervor não peneiradas, de início apenas para adular
tal qual o olhar de um animal tragando luz
ou correr para buracos de rato” Ezra Pound

Leonardo Fernandes na peça Cachorro enterrado vivo

Baseada no mórbido acontecimento real que dá nome à peça “Cachorro enterrado vivo” ultrapassa a história em si para refletir sobre a existência. Ao superar essa primeira camada a soberba atuação de Leonardo Fernandes é quase que suficiente para dar conta do amplo espectro que a montagem aborda, não estivesse ele ainda auxiliado por preciosas escolhas de cenário, iluminação, figurino e trilha sonora, aspectos que elevam a tensão necessária. A decisão de incluir ‘suspiros’ cômicos para o espetáculo também surte o efeito não apenas de balancear o ritmo da narrativa como de, efetivamente, contribuir para a reflexão proposta: é um humor sempre mórbido, sádico, que nos leva a pensar sobre o que estamos rindo, afinal por mais que as bochechas se alarguem permanece o ranger de dentes ante a mandíbula tensionada, a garganta seca e amarga. Nada aparece por acaso no texto de Daniela Pereira de Carvalho, capaz de nos reservar surpresas em sua estrutura hábil, elástica.

A dramaturga consegue construir com palavras uma narrativa altamente visual, despojada e coloquial, sem nunca esmaecer sua densidade, ao contrário, as camadas textuais são revigoradas justamente pela consciência cênica que tanto o ator em cena quanto a direção captam e elaboram através de elementos dramatúrgicos para dividir com o espectador. Um dentre os grandes méritos da direção é dar unidade a cenas que dialogam entre si, embora nunca diretamente, assim como Leonardo, que alterna as três personagens dando a cada uma delas características que sem as delimitar articulam aspectos fundamentais de suas personalidades, por meio de gestos, dicções e emissões de voz – ao cachorro interpretado, por exemplo, utiliza-se linguagem assimilada a dos desenhos animados. Estabelecendo conexões entre as histórias que se interligam a peça contextualiza as animalidades, ao perceber o humano em sua violência mais primitiva, tanto quanto o animal é nutrido de desejos e emoções.

Ficha técnica
Dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho.
Direção de Marcelo do Vale.
Com Leonardo Fernandes.
Cenário e figurino: Cícero Miranda/Trilha Sonora Original: Márcio Monteiro/Criação de Luz: Wladimir Medeiros/Técnico de Luz: Daniel Hazan/Preparação corporal e produção executiva: Eliatrice Gischewski/Voz off: Bruna Chiaradia/Projeto gráfico: Estúdio Lampejo/Cenotécnico: Ronaldo de Deus/Produção: Marcelo Carrusca e Leonardo Fernandes

Cachorro enterrado vivo tem direção de Marcelo do Vale

Raphael Vidigal

Fotos: Lia Soares e Suzana Latini.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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