Análise: A herança das Carmen’s na música brasileira

“Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.” Florbela Espanca

Carmen Costa, Carmen Silva e Carmen Miranda, cantoras do Brasil

Com a morte de Carmen Silva encerra-se, ao menos em vida, a dinastia deste nome na música brasileira. A herança das três, no entanto, permanece, em seus diferentes espectros e singularidades. A mais conhecida delas, Carmen Miranda, representa também o maior número de paradoxos. Símbolo de brasilidade, nascida em Portugal, alçou o país à fama internacional ao se apresentar nos palcos e participar de filmes emblemáticos na terra do Tio Sam, os Estados Unidos da América.

Carmen Costa guarda mais semelhanças com a outra xará, exemplo o fato de ambas terem trabalhado como empregada doméstica, o que expõe também traço marcante da sociedade brasileira. Também participou de chanchadas nacionais e gravou sucessos carnavalescos, cujo mais expressivo continua sendo “Cachaça”, que tem entre seus compositores Mirabeau.

Já Carmen Silva, mineira, reconhecida pelo epíteto de “Pérola Negra” era a mais nova delas, e se especializou durante as décadas de 1970 e 1980 em canções à época consideradas bregas, de forte teor romântico. Para além do primeiro nome, o que une, sobretudo, e a principal herança das três Carmen´s para a música brasileira é o apelo popular.

Disseram que eu voltei americanizada (samba, 1940) – Luiz Peixoto e Vicente Paiva
Em 1940, após um longo período sem se apresentar no Brasil, a portuguesa Carmen Miranda voltou à terra que a acolheu e foi recebida no aeroporto por uma multidão de fãs. No entanto, ao se apresentar a grã-finos no Cassino da Urca acabou tendo uma recepção fria por cantar algumas músicas em inglês. Acusada de ter ficado “americanizada” pelo tempo que passou nos Estados Unidos, Carmen gravou no mesmo ano o samba “Disseram que eu voltei americanizada”, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva, no qual era enfática: “enquanto houver Brasil na hora da comida, eu sou do camarão ensopadinho com chuchu!”, retificando o apreço pelas delícias tupiniquins.

Cachaça (marchinha de carnaval, 1953) – Mirabeau, Lúcio de Castro, Héber Lobato e Marinósio Filho
Batizada pelo sambista Henricão com o nome artístico de Carmen Costa, com quem, aliás, iniciou carreira em dupla nos palcos de Juiz de Fora, numa feira de mostras no Arraial do Rancho Fundo, interior das Minas Gerais, a intérprete especializou-se em sucessos carnavalescos, sendo o mais reconhecido de todos eles “Cachaça”, marchinha de carnaval lançada em 1953 cujos versos “se você pensa que cachaça é água/cachaça não é água não/cachaça vem do alambique/e água vem do ribeirão” de inegável inspiração na sabedoria popular ecoam até hoje nas festas do mês de fevereiro. A exemplo dos precedentes sambas-enredo, a música conta com a assinatura de um número expressivo de compositores, algo que se tornaria mais comum nas décadas seguintes.

O amor é um bichinho (brega, 1984) – Edelson Moura e Geraldo Nunes
Carmen Silva nunca aceitou compassiva as expectativas depositadas por outros sobre ela. Babá e empregada doméstica decidiu ser cantora, foi atrás de seu sonho e realizou-o com enorme sucesso junto a seu público. Mais, ela recusou a indicação para cantar sambas, algo comum e recorrente, principalmente para cantoras negras, e escolheu repertório com o qual sentia identificação, inclusive tornando-se compositora. Dentre os números gravou a pérola “O amor é um bichinho”, música de peculiar estética brega de autoria de Edelson Moura e Geraldo Nunes, lançada em 1984. “O amor é um bichinho, que rói, rói, rói/Rói o coração da gente, e dói, dói, dói…”. Não por acaso ficou conhecida como “Pérola Negra”, continuando a tradição iniciada por Jovelina.

Carmen Miranda com o Bando da Lua em Los Angeles

Raphael Vidigal

Imagens: Montagem com fotos das cantoras Carmen Costa, Carmen Silva e Carmen Miranda, da esquerda para a direita; e Carmen Miranda rodeada pelos integrantes do “Bando da Lua”, respectivamente. Fontes de arquivo.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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