7 parcerias de Cazuza e Lobão

“Não escondam suas crianças
Nem chamem o síndico
Nem chamem a polícia
Nem chamem o hospício, não” Cazuza e Lobão

Foto sem dataCazuza e Lobão.

Numa entrevista para Marília Gabriela em dezembro de 1988, Cazuza afirmava que “roqueiro não tem mais cara de bandido”. Com exceção de dois. Ele e Lobão. As mães preferiam ver as filhas casadas com Paulo Ricardo a cruzar o caminho de ambos. Amigos de longa data, Cazuza e Lobão compuseram juntos cinco músicas, ainda que haja ruídos e especulações de que sejam mais. Isto porque Cazuza apropriou-se de tal maneira da canção “Vida, Louca, Vida” – letra de Bernardo Vilhena com música de Lobão – ao cantá-la quando já lutava contra o vírus da AIDS, que muitos ainda cometem o deslize de credenciá-la ao intérprete, incluindo, aí, alguns músicos. A outra intrusa nesta parceria deu-se em razão do temperamento de Cazuza que, não se conformando com a recusa de Lobão em participar de música dedicada a Rogéria decidiu credenciá-la assim mesmo ao “parceiro rebelde”. Só tempos depois Lobão descobriu que “escrevera ‘Quero Ele’” com Cazuza. Para não deixar ponto sem nó, ou arame sem farpa, seguem as sete músicas.

Mal nenhum (1985) – Cazuza e Lobão
Similaridades de comportamento e gostos em comum uniam Lobão e Cazuza. Em 1985, ambos expulsos de seus respectivos grupos, “Barão Vermelho” e “Os Ronaldos”, encontraram-se no Baixo Leblon e, por sugestão de Cazuza, iniciaram parceria musical. A música “Mal nenhum”, lançada por Cazuza em seu primeiro disco solo, “Exagerado”, de 1985, foi apresentada pelo cantor pela primeira vez durante o “Rock In Rio” daquele ano, ainda na companhia do grupo “Barão Vermelho”. Antes de cantá-la Cazuza faz uma defesa, a seus modos, de Lobão. O autor da letra afirma que o texto diz respeito a “uma fase em que nem eu me aguentava. Andava meio agressivo e o Lobão estava parecido comigo”. Já Lobão, responsável pela melodia diz que “apesar de parecer simples, foi bastante trabalhada”. O que emerge deste conjunto é uma música visceral, lírica, recado de uma geração para seus afetos e opressores. Regravada, entre outros, por Lobão, Cássia Eller e Arnaldo Antunes.

[Glória], Junkie Bacana (1986) – Cazuza e Lobão
Depois da primeira dose, é difícil largar o copo. Cazuza e Lobão retomam a parceria um ano depois da primeira, em 1986, e logo em grande estilo. A vida de excessos, o discurso incisivo e o deboche tomam o posto de frente na canção “[Glória], Junkie Bacana”, que gerou divergências entre os parceiros já no título. Lobão explica que “Glória, a Junkie Bacana do título é minha irmã, Cazuza fez a letra em homenagem a ela. Ele adorava minha irmã e eu detestava na época porque ela tinha essa patologia de acordar com uma vela e, morando na minha casa bebeu e jogou álcool no cobertor”. Além de tocar fogo na realidade, como já era de se esperar, a canção refletia esse incêndio provocado pelos dois que, moderadamente, pediam desculpas ao vizinho por “Mijar na janela/Chamando por Deus/E gritando o nome dela”, entre outras cositás más. A música, letra de Cazuza e melodia de Lobão, foi lançada pelo segundo em 1986, no álbum “O Rock Errou”.

Baby Lonest (1986) – Cazuza, Lobão e Leduscha
A poesia também uniu Lobão e Cazuza. Em 1986, os dois adaptaram um poema de Leduscha e a transformaram em letra de música lançada por Lobão no álbum “O Rock Errou” e regravada por Cazuza em 1989, em “Burguesia”. A música versa sobre uma “ninfa do asfalto”, a baby perdida do título que utiliza expressão repetida diversas vezes por Cazuza para se referir a flertes e encerrar frases. Nas versões dos autores existem variações tanto de ritmo, quanto de versos e leituras, o que traz à tona não apenas as igualdades, mas também as diferenças que uniam Lobão e Cazuza. Afinal eles nunca foram propagadores da homogeneidade e muito menos dos discursos prontos, das frases feitas e do senso comum. Há, sempre, em Lobão e Cazuza, algo de original, algo de provocativo, que busca atentar para uma visão além do que se vê nos “Olhos de sangue/Nas pernas daquela menina/Nas pernas daquela avenida”. Há um discurso de liberdade e libertação, possibilidades, sobretudo.

Vida Louca Vida (1987) – Bernardo Vilhena e Lobão
“Vida Louca Vida” é uma música de Lobão e Bernardo Vilhena. O primeiro é responsável pela melodia, o segundo, pela letra. Lançada por Lobão em 1987 no álbum “Vida Bandida”, estouro de vendas e prestígio que continha, entre outros, clássicos do calibre de “Rádio Blá” e a canção título, a música em questão logo se destacou pelos frementes versos e os acordes e notas que a acompanhavam e lhe davam peso. Não por acaso chamou, e muito, a atenção de Cazuza, que, ao se identificar com a letra transmitiu esse sentimento a milhares de brasileiros quando a regravou um ano depois, em 1988, no emblemático disco ao vivo “O Tempo Não Para”, oriundo do show dirigido por Ney Matogrosso, que também gravaria a música anos depois, em 2013, no álbum “Atento aos Sinais”. Tudo isso apenas prova o poder de permanência da canção por sua qualidade, e mais ainda, a admiração recíproca de Lobão e Cazuza, pois um solicitou a sua regravação e o outro consentiu ao amigo.

Azul e Amarelo (1989) – Cazuza, Lobão e Cartola
“Azul e Amarelo” é outro caso de parceria tripla envolvendo Lobão e Cazuza, embora o outro ‘compositor’ seja, na verdade, um homenageado, e uma das últimas dos dois. Como relata Lobão, “’Azul e Amarelo’ era uma música nitidamente de despedida”. Cazuza recorre às cores de seu guia espiritual no candomblé para dar título à música, conhecido por ser metade menino, metade mulher, como ele diz: “Eu sou cínico, revoltado e menino, mas principalmente muito menino. Sou um edé no candomblé. Sempre que eu vou a um lugar espírita, vem um indiozinho me proteger. Meu anjo da guarda é uma criança”. Na letra, aflora a doçura e singeleza de Cazuza que se diz protegido e crente de “anjos, fadas, gnomos” e outras criaturas envolvidas no som de fantasia. A inclusão de Cartola como um dos parceiros veio por sugestão de Cazuza, que dizia usurpar versos de uma canção do sambista, no caso “Não quero/Não vou/Não quero”, presentes em “Autonomia”. Lobão, nascido no mesmo dia de Cartola, aproveitou a onda de coincidências e o transe mágico do amigo e foi junto. Além do mais, Cartola e Cazuza tinham quase o mesmo nome. O primeiro Angenor, por erro do cartório, o segundo, Agenor. Qual dos dois era o mais errado? Os dois deram certo na música. Cazuza lançou “Azul e Amarelo” no disco “Burguesia” e Lobão em “Sob o Sol de Parador”, ambos em 1989.

Quero Ele (1989) – Cazuza e Lobão
As parcerias póstumas entre Lobão e Cazuza começaram antes que o primeiro pudesse saber. Um tempo depois da morte do amigo em 1990, aos 32 anos, vítima da AIDS, Lobão recebeu direitos autorais por uma música da qual não sabia ter participado. “Quero Ele” foi composta por Cazuza especialmente para a transformista Rogéria em 1989, que estrelava a versão teatral do espetáculo “Querelle”, de Jean Genet, sobre a vida do marinheiro que seduzia homens e mulheres e frequentava o submundo do crime e das drogas no universo francês. O trocadilho entre o nome da personagem e a vontade por alguém serviram de combustível para Cazuza desfilar versos da estirpe “Quero tê-las/Seus bagos/Suas orelhas/Quero ele brocha/Quero ele rocha/Quero ele com seus pentelhos/E seu doce sorriso nas sobrancelhas/(…)/Quero Querelle e seu irmão/(Quero Rogéria e seu pauzão)”, suficientes para Lobão recusar a parceria. Mas como Cazuza não se fez de rogado, Lobão ficou sendo parceiro mesmo a descontentamento. Interpretada por Rogéria em cena, a música foi também registrada por Adriana Capparelli em espetáculo com canções do teatro.

Seda (2005) – Cazuza e Lobão
Em 2005, quando preparava mais um álbum independente, “Canções dentro da noite escura”, Lobão recebeu de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, a letra de “Seda”. Chamado a musicar a canção, Lobão se pôs frente a fotografias do amigo e eliminou apenas um verso, que tratava de “luvas e cuecas”. Com uma pegada essencialmente rock e menção a Bob Dylan, a música faz jus ao histórico de parceria, amizade, vida, princípios e rebeldias de dois parceiros incomuns e únicos na canção brasileira, capazes de fabricar canções de alto poder de contestação e ainda assim emplacarem sucessos radiofônicos. Há, na trajetória de Lobão e Cazuza essa similaridade, de não diluírem o discurso, o que está presente, inclusive, na potência melódica da canção referida. É de “Seda” um dos mais belos versos sobre a vida escritos por Cazuza, “saudade é felicidade abafada, futura…”, e uma das mais inspiradas e precisas melodias de Lobão. Para tais acordes não há palavras. Apenas perplexidade e sentimentos.

cazuza-lobao-musica

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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