Por que a polêmica do prato-e-faca na live de Caetano diz tanto sobre o Brasil?

*por Camila de Ávila, jornalista cultural, pesquisadora da música brasileira e idealizadora do Sarau Minas Tênis Clube

“Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo” Caetano Veloso

A #LiveALenda de Caetano Veloso, como tudo que envolve Caê, gerou polêmica. A culpa nem foi do cantor aniversariante, mas de alguns jornalistas, digamos… desinformados. Qual a estranheza em tocar prato-e-faca? Por que a Rolling Stone, renomada revista de conteúdo musical, cometeu tamanha gafe (erro mesmo, né gente?)? Por que a Folha de S. Paulo disse que o uso do “prato com um talher” reforçou o estilo caseiro da live? Desconhecimento? Preconceito? Complexo de vira-lata?

Não é preciso fazer uma pesquisa muito profunda para saber que prato-e-faca “é um instrumento musical de percussão utilizado no samba”, segundo a Wikipédia. O Dicionário da História Social do Samba, de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, tem o “inusitado” e “cômico” instrumento como um de seus verbetes. Na publicação, está escrito: “Prato-e-faca é o conjunto de utensílios de cozinha outrora usado na percussão. Esse uso reflete uma tendência, comum na música de matriz africana nas Américas, que é a de servir-se de objetos quaisquer para produzir som ritmado. É o caso, ainda no samba, das caixas de fósforos, do chapéu ‘palheta’, colheres, garrafas, etc”.

África. O multi-instrumentista, compositor e produtor paulista Rui Kleiner lembra que o prato-e-faca é um instrumento antigo. “A gente sabe muito sobre o prato-e-faca principalmente pela mão do João da Baiana, que era muito usado no samba de roda da Bahia, que remonta ao início do século XX. Outras incidências que eu já vi são no Congado, Folia de Reis e já me falaram que está presente nas Festas do Divino”, explica.

De verdade, eu acredito que os erros dos mencionados veículos foram cometidos por ignorância alinhada a certo preconceito que ainda existe em relação ao samba e aos ritmos que são oriundos de África, ou os brasileiros.

Rui Kleiner lembra que, “tendo em vista que no início do século XX era proibido tocar pandeiro, qualquer coisa que fizesse barulho que lembrasse alguma coisa africana, a pessoa era presa”. Textos como esses da Folha e da Rolling Stone fazem pensar que este preconceito ainda não acabou. Desvalorizar o que é nosso, do Brasil oriundo da matriz africana, é um comportamento que ainda vigora e, especialmente, existe a contrapartida de valorizar o que vem de fora.

Vamos preferir cantar a lá Beyoncé do que como Mônica Salmaso. Whitney Houston canta mais que Elis Regina (todas essas cantoras são muito boas, a questão aqui não é a qualidade de seus cantos, mas o reconhecimento de que suas formas de cantar estão alinhadas à identidade de suas escolas musicais).

Vira-Lata. Jorge Aragão, em parceria com Acyr Marques, lançou, em 1986, um belíssimo samba chamado “Coisa de Pele”. O estudo intitulado “O Samba como Prática Informacional: a Cultura Brasileira Através da Memória”, de Patrícia Vargas Alencar, doutora em linguística pela UNIRIO, afirma que a letra da canção fala de escravidão e do sentimento de vira-lata que o brasileiro possui.

“O sentido veiculado pela letra ‘Coisa de Pele’ é historicamente construído via discurso. Há fragmentos que evidenciam que o povo reconhece as formas do poder do passado que o impediam de sorrir. Tal reconhecimento é marcado em ‘não dá pra fugir/ dessa coisa de pele/ sentida por nós/ desatando os nós’ que retrata possivelmente a trajetória de escravidão, momento em que as manifestações culturais advindas do exterior eram valorizadas”, diz o estudo.

Bahia. Patrícia Vargas continua sua análise constatando que “o fragmento ‘sabemos agora/ nem tudo que é bom vem de fora’, veicula a valorização do que é produto nosso. O que tem valor ‘é a nossa canção pelas ruas e bares’, a qual nos mantém lúcidos quanto ao jogo de poder que discriminou o negro e sua cultura, representados por Palmares”, explica a doutora.

Caetano Veloso teve como ama de leite a lendária instrumentista dona Edith do Prato. Talvez por isso, o cantor se assustou tanto com o texto publicado na Rolling Stone.

“Cara, prato-e-faca é… Edith do Prato que gravou comigo em ‘Araçá Azul’ (1973), fez excursão no Brasil inteiro comigo nos anos 1970. (…) No filme sobre Bethânia, aparece minha mãe tocando prato, num samba de roda da Bahia, gravado no início dos anos 70. Prato-e-faca no samba de roda da Bahia é obrigatório, é um instrumento tradicional. Mas não é só na Bahia, aqui no Rio ainda tem gente que toca. (…) Se você falar com qualquer pessoa do mundo do samba sobre prato-e-faca, vão falar: ‘Ah sim, prato-e-faca!’. Agora, uma revista de música falar que prato-e-faca foi inventado na hora porque Moreno não tinha instrumento é uma maluquice, uma ignorância inacreditável”, disse Caetano.

Resistência. Tem que se concordar com Caê, o que foi escrito nas notas da Folha de S. Paulo e da Rolling Stone é esquecer toda uma história de luta e resistência de um povo em manter sua cultura. Rui Kleiner reafirma o espaço do prato-e-faca na história do samba e do país. “A importância histórica do prato-e-faca é enorme. Remonta sobre as idas dos baianos para a então capital, o Rio Janeiro, que levou formas e instrumentos das músicas de roda da Bahia ao samba do Rio. É possível escutar em alguns sambas de quadra o som do prato-e-faca”.

Em uma de suas mais belas canções (na minha opinião A MAIS BONITA QUE ELE ESCREVEU NA VIDA), “Desde Que o Samba É Samba”, lançada em 1993, Caetano Veloso afirma a gênese do samba, deixando claro o seu poder de transformar a dor em prazer. Viajando para um lado subjetivo, raspar a faca no prato é quase que cortar a pele, porém com ritmo. O sangue seria o som do povo escravizado que, para não chorar de dor, cantava.

E se você pensa que é simples tocar o prato-e-faca… Ah, meu caro, leitor, não é não. Rui Kleiner diz que “não é só você pegar um prato e raspar. João da Baiana, tocador histórico do instrumento, tinha uma coisa, ele preparava uma parte do prato”, sublinha o músico.

Batucada. Como os textos da Rolling Stone e da Folha de S. Paulo não são assinados, penso que as equipes de jornalistas dessas redações deveriam ouvir um pouco mais as históricas canções nacionais. Nos shows de Maria Bethânia, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso e tantos outros nomes da música brasileira, os músicos recorrem ao som do prato-e-faca.

Assis Valente (1911-1958), baiano de Santo Amaro da Purificação, fez um samba ufanista, bastante conhecido na voz dos Novos Baianos: “Brasil Pandeiro”, canção rejeitada por Carmem Miranda, afirma em um de seus versos “na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá”. Tenho certeza de que, nessa batucada aí, tinha prato-e-faca ajudando a manter o ritmo.

Sugiro aqui mais canções que mostram tomada de estrangeirismos e outras que tentam elevar a autoestima nacional, elevando o que é nosso:

“Reconvexo” – Caetano Veloso (autoestima)
“Joana Francesa” – Chico Buarque (estrangeirismo)
“Disseram Que Eu Voltei Americanizada” – Vicente Paiva e Luís Peixoto (autoestima)
“Samba do Approach” – Zeca Baleiro (estrangeirismo)
“Eu Vim da Bahia” – Gilberto Gil (autoestima)

Fotos: Instagram/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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