Luiz Melodia ganha biografia que revela episódio violento de racismo

*por Raphael Vidigal

“Ir recebendo um pouco de poesia no peito
Sem lembranças do mundo, sem começo…
Chegar ao fim sem saber que passou” Manoel de Barros

Ninguém sabia explicar direito o que tinha acontecido. A viagem deveria durar dez dias, mas se estendeu por mais de seis meses. Quando atendia aos telefonemas, Luiz Melodia (1951-2017) pedia a grana do adiantamento e a gravadora mandava. “Ele era um artista prestigiado na época, dizia que estava se inspirando na terra baiana para criar o novo repertório”, conta Toninho Vaz, 72, autor de “Meu Nome É Ébano: A Vida e a Obra de Luiz Melodia”, que acaba de ser lançada, exatos três anos após a morte do biografado.

Melodia estourou pra valer antes mesmo de estrear seu disco na praça, em 1972, fazendo sucesso simultaneamente nas vozes de Gal Costa e Maria Bethânia, que gravaram “Pérola Negra” e “Estácio, Holly Estácio”, numa sequência arrebatadora para a carreira do carioca do Morro de São Carlos criado no bairro do Estácio, onde travou contato com Gonzaguinha (1945-1991), também nascido por aquelas bandas.

Maldição. No embalo do êxito comercial e de crítica, ele resolveu acompanhar Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Jorge Mautner, que se apresentariam no Festival de Verão da Bahia, numa excursão à Salvador. “Nos primeiros dias da temporada, ele estava curtindo a cidade, quando, subitamente, conheceu a Jane”, revela Vaz. Já estava na hora de Melodia entrar em estúdio para gravar o próximo álbum, mas, apaixonado por sua futura esposa, com quem ficaria até o fim da vida, preferiu ficar em uma casinha praiana no norte da capital baiana.

“Ele voltou para o Rio já casado, mas esse período deu a ele essa fama de rebelde às formalidades do trabalho”, pontua o biógrafo. A despeito de ser “bom de venda”, como observa Vaz – em 1999, faturou disco de ouro com “Acústico Ao Vivo” – a alcunha de “maldito” o perseguiria, a exemplo de amigos donos de obras bem menos comerciais, como Jards Macalé e Itamar Assumpção (1949-2003). “Ele não gostava de ser chamado de ‘maldito’, achava um equívoco”.

Milagres. A partir do LP “Pérola Negra” (1973), eleito um dos 100 melhores da música brasileira de todos os tempos pela revista Rolling Stone, o público pôde conhecer a interpretação do autor de canto anasalado para os clássicos instantâneos lançados por Gal e Bethânia, além de “Magrelinha”, “Farrapo Humano”, “Vale Quanto Pesa”, e não parou mais de ouvi-lo. “O Hyldon – autor de ‘Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda’ – deu um depoimento genial, disse: ‘veja bem, sou um bom cantor, afinado, mas não tenho o timbre do Melodia, é uma coisa rara, agrada aos ouvidos’”, reproduz Vaz.

A capacidade como cantor rendeu um elogio inédito de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza (1958-1990), que considerou o registro de Melodia para “Codinome Beija-Flor” melhor do que a do próprio rebento. “Ele se apropriava das canções”, garante o entrevistado. Uma prova cabal é “Negro Gato”, de Getúlio Côrtes, que, após a releitura de Melodia passou a ser indissociável de sua personalidade. A música fez barulho com Roberto Carlos em 1966, mas nada comparável à gravação definitiva do compositor de “Juventude Transviada”.

Estilo. “O Melodia bebeu muito na fonte da Jovem Guarda, tanto que a sua mãe fazia roupas para ele iguais às do Roberto e do Erasmo, de gola alta e com calça boca de sino”, sublinha Vaz. Filho do sambista Oswaldo Melodia, de quem herdou o sobrenome artístico e gravou o choro “Maura”, o garoto do Estácio teve no poeta Torquato Neto (1944-1972) um de seus “descobridores”, assim como em Wally Salomão (1943-2003), idealizador do icônico espetáculo “Fa-Tal: Gal a Todo Vapor”. O caldeirão de referências musicais culminou no batismo de seu único filho, o rapper Mahal, segundo Vaz uma homenagem ao pianista de blues Taj Mahal.

Macalé, que escreveu “Negra Melodia” pensando no amigo, chama atenção para outros dois aspectos: as divisões do violão e a batida peculiar. “Ele fala que a mão direita do Luiz era uma valsa e um carnaval, destaca esse lado imprevisível, de a gente ficar sem saber para onde aquilo vai”, relata o escritor, que cita como exemplo a canção “Fadas”, que fecha “Mico de Circo” (1978), regravada por Elza Soares. “É uma música que começa com ‘devo de ir’, onde já se viu isso? O Melodia era um artista extremamente original”, enaltece.

Poesia. Letrista espontâneo e sofisticado, o compositor prescindiu de estudo formal para criar sua obra. Os versos favoritos de Vaz estão em “Estácio, Eu e Você”: “Hoje o dia está mais firme/ Abre mais meu apetite/ Cura e seca minha bronquite/ Algumas folhas de hortelã”. “Isso é Manoel de Barros (1916-2014) puro!”, compara. O encontro entre Melodia e o vencedor do prêmio Jabuti de 1995 aconteceu por intermédio do violonista Renato Piau, parceiro do músico e casado com a filha do poeta mato-grossense.

Em 2001, Melodia musicou “Retrato do Artista Quando Coisa”, poema de Manoel que deu título a seu disco daquele ano. “O Millôr (Fernandes) dizia que a poesia do Manoel era ‘o apogeu do chão’, e as letras do Melodia têm muito dessa coisa desconcertante pela simplicidade”. Canção menos conhecida da lavra do cantor, “Cura” não tem saído da vitrola de Vaz em tempos de pandemia: “Eu vi na rua/ O seu coração sozinho/ Estava bem no caminho/ Eu não pude evitar/ Tava fraquinho/ Suplicando por carinho/ Cravejado de espinho/ Uma cena de chorar”.

Preconceito. Com uma narrativa cronológica, Vaz gosta de iniciar a trama através de uma abordagem curiosa, hábito que desenvolveu nas biografias de Paulo Leminski (1944-1989), Torquato Neto e Zé Rodrix (1947-2009). No caso de Melodia, dá a partida pelo Morro de São Carlos, que ele chama de “A Montanha Mágica”. “O Luiz foi um sobrevivente das circunstâncias políticas antes mesmo da ditadura. Ele superou o caos de um ambiente hostil, violento, às vezes com tráfico, graças a seus méritos musicais”, opina. Ao todo, o biógrafo colheu 64 depoimentos, com um ano dedicado à pesquisa e outro à escrita do livro. Comparecem, ao longo das 336 páginas, falas da viúva Jane Reis e de parceiros como Roberto Frejat, Arnaldo Brandão, Gal Costa e Elza Soares.

Alguns desses entrevistados vivenciaram episódios de racismo com Melodia, como a própria Jane. “Eles estavam no auge da paixão em Salvador e decidiram dormir uma noite em um hotel, mas o gerente não deixou por puro preconceito. Além de ser negro, o Luiz se vestia como artista, aí o cara achou exótico demais e barrou eles”, informa Vaz. Compositor de “Olhos Coloridos”, hit de Sandra de Sá, Macau relembra as batidas da polícia que eles tomavam ao passearem pela praia de Ipanema. Já Guarabyra, da dupla com Sá, descreve uma cena ainda mais violenta. “Eles se encontraram no baixo Leblon uma noite e o Melodia estava tenso porque, cerca de dois, três dias antes, tinha sido preso e um policial passou um ralador de queijo na perna dele de deixar em carne viva”.

Vícios. Apesar de considerar esse “um terreno movediço”, o autor também não deixa de tocar na questão das drogas. “Vai ser difícil encontrar algum artista da geração dele que não tenha feito uso de drogas, e te garanto que o mesmo vale para os jornalistas”, afiança Vaz. Ao lado de Cazuza, considerado “o rei do baixo Leblon”, Melodia era visto com frequência na badalada noite do Rio de Janeiro. “Sustento que, como o (Paulo) Leminski, o que matou o Luiz foi o álcool, com as drogas pesadas ele já tinha parado antes”. De acordo com Vaz, o músico estava em “um tratamento intenso contra um câncer na medula, que poderia dar resultado, mas, no meio disso, apareceu uma cirrose”.

Vaz e seu protagonista se encontraram pessoalmente apenas duas vezes. A primeira nos anos 70, e, a segunda, em 2003, no palco do Canecão, em uma entrevista para a biografia de Torquato. A ideia para escrever sobre Melodia partiu de Renato Piau, próximo de ambos, que levou Vaz até a casa de Jane. É lá que foram descobertas algumas raridades de Melodia, como “E Você Diz”, parceria com Macalé lançada com o adendo de Frejat no recente “Ao Redor do Precipício” e “Feto, Poeta do Morro”, censurada pela ditadura militar em 1970 e finalmente registrada em 2020 por Pedro Luís, que colocou no mercado a edição de luxo do ótimo tributo “Vale Quanto Pesa: Pérolas de Luiz Melodia”, com 19 faixas.

“Ele tinha uma gaveta cheia de cadernos que começou a rabiscar na adolescência”, comenta Vaz. O que só comprova que, como diz a aguda letra de “Abundantemente Morte”, do inaugural “Pérola Negra” (1973): “Sou peroba/ Sou a febre/ Quem sou eu/ Sou um morto que viveu/ Corpo humano que venceu/ Ninguém morreu”.

Fotos: Daryan Dornelles/Divulgação.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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