Crônica profana

*Raphael Vidigal Aroeira

“O Amor se senta sobre o crânio
Desta Espécie Humana
E desse trono ele o profana
Com riso de escárnio.” Baudelaire

O braço se eleva ao alto como a pata de uma pantera que, num átimo, despenca sobre o tambor com a fúria de quem alcança a jugular da presa. A pressão exercida pelos dedos mantém a baqueta sob o domínio do ritmo, que a atravessa da espinha dorsal ao cóccix feito um espasmo involuntário, dando a sua particular contribuição para a convulsão coletiva de rostos, joelhos e maxilares a fremir intempestivamente. O cabelo afogueado e os óculos de aro arredondando são uma homenagem a Rita Lee. Mas Elisa Bertilla, 33 anos, não é Rita Lee, é uma advogada trabalhista que anseia justiça. Ou melhor, é Rita Lee, cujo corpo agora só anseia alegria, essa estupefação dos sentidos tão amoral quanto o desejo, que só quer se imiscuir nas brechas por onde brota a lassidão sensual de pernas esculpidas pelo suor e de lábios deliciosamente impacientes. “O Carnaval é brincadeira”, diz Elisa, com a sua cara de mutante atrevida.

A pochete presa pelo ombro parece salpicada com as mesmas sardas vermelhas que enfeitam o rosto da arquiteta. Brincos translúcidos dão a impressão de que não há limites para suas orelhas, enquanto elas se distraem entre a conversa de um grupo de rapazes entusiasmados e a música itinerante que acompanha os passos de concreto da paisagem e se desmancha pelo ar. “Estou aqui para me divertir”, conta Naiara Meireles, 23 anos. Ou para ver se o mundo acaba em orgia. Logo ela acende um cigarro de palha e segue piscando para um amor prometido. Não há tomada de fôlego que contenha o desespero expresso pela sequência de beijos e línguas. Estamos no domínio do prazer urgente, sob as bênçãos de um Baco que derrama vinho e cerveja em seus súditos aflitos. Pode ser que tudo se acabe de repente, mas, na pressa, Naiara encontra o que, nessa ínfima “eternidade do presente”, fartamente a preenche…

No peito aberto do fotógrafo Artur Andrade, 40 anos, está a saudade da filha, que passa férias com a mãe na praia. O tórax moreno surge entre os botões da camisa colorida, insurgido de um vigor que contrasta com seus olhos baixos. Lembra um Pierrot latino, em sua tentativa frustrada de mascarar a realidade. “É bom demais essa época do ano”. A mineirice que sai de sua boca traz a permissão de não ser mais triste. O horizonte que ele mira queima, borbulha e escorre como uma lava vulcânica que nenhuma tempestade, nenhum dilúvio, nenhum vendaval é capaz de conter. O que há para se purgar ficou pra trás, em lembranças esmaecidas pelo tempo cronológico. Aqui ele se insufla gloriosamente como uma roleta que ataca em diferentes e simultâneas direções. Não há pecado quando não existe culpa, medida ou ponto de vista. E a chuva vem só para refrescar, sussurra a criança. Aceitemos sem medo o triunfo da inocência.

Entre a catarse e a euforia, a multidão não se dispersa, e chega a ser de fato uma ironia que guiada pela confusão libertária permaneça unida como bloco de concreto que, no entanto, compõe-se de partes móveis que fluem cada qual à sua maneira. No olho do furacão, um calor esgazeado rege a desordenada folia aos pulos e soluços. Rijo como o poste da avenida, o braço de Rita Lee desfere outro ataque no bojo da pele encourada, tornando sua carne mais macia. A arquiteta só quer do corpo o que suspenda todas as fronteiras. Nosso Pierrot segue triste, mas como bom latino encena uma resistência altiva, e a cicatriz que risca seus olhos verdes pode ser tanto lágrima quanto confete e serpentina. Tilinta, retine, ribomba, o som que cada um exprime talvez se demonstre nessa espiral frenética, que circularmente extingue começos, meios e fins. É apenas a primeira e ansiada tarde de Carnaval. Seja como for, o gozo é coletivo.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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