Livro com entrevistas inéditas promove novo resgate da cantora Claudya

*por Raphael Vidigal

“A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?” Cecília Meireles

Claudya, 72, ficou durante muito tempo relegada a um injusto limbo. Até que, em 2008, o rapper Marcelo D2 incluiu um sample de “Deixa Eu Dizer” na música “Desabafo”: “Deixa, deixa, deixa eu dizer/ O que penso desta vida/ Preciso demais desabafar”, ecoava a voz límpida e de largo alcance, originalmente gravada no LP de 1973. Na sequência, Thiago Marques Luiz produziu para a Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, “Senhor do Tempo: Canções Raras de Caetano Veloso”, com preciosidades do calibre da faixa-título e “As Várias Pontas de Uma Estrela”, tirando a intérprete de um hiato fonográfico que já durava seis anos.

Agora, é a vez de o projeto “A Música De: História Pública da Música do Brasil” promover mais um resgate da cantora que chegou a ser equiparada a Elis Regina e considerada uma das mais promissoras do país, a partir do livro “Claudya: O Que Não Me Canso de Lembrar”, orquestrado pelos editores e pesquisadores musicais Daniel Saraiva e Ricardo Santhiago. O ponto de partida são depoimentos da protagonista, colhidos e registrados oralmente em vídeos disponíveis no site da empreitada, acrescidos de falas de colegas, amigos, rico acervo fotográfico, introdução crítica e discografia completa da artista.

O poder do talento e do temperamento de Claudya; Leia entrevista completa com a cantora

“Claudya tem uma trajetória artística admirável, e nosso objetivo foi promover um registro dessa trajetória na voz dela própria. Para isso, utilizamos o método da história oral: realizamos entrevistas e fizemos um minucioso trabalho de edição, que se torna público por meio do livro”, explica Ricardo Santhiago. Ele esclarece que “a proposta da série não é necessariamente trazer ‘furos’”. “Pelo contrário, atuamos fora desse registro do espetacular. O que promovemos é um registro da trajetória do artista, narrada e interpretada por ele mesmo, o que, evidentemente, possibilita retificar ou se contrapor a outras informações que circularam anteriormente. Como historiadores, naturalmente cruzamos fontes, acrescentamos comentários críticos, consolidamos a discografia, fazemos questionamentos, porém, neste projeto, reconhecemos a autoridade do sujeito na narração de sua própria história”, pontua.

Altos e baixos. Um dos pontos mais controvertidos da carreira de Claudya, e que, para alguns, ajuda a explicar o seu ostracismo midiático, remonta aos anos 1960. À época, o compositor e produtor Ronaldo Bôscoli, que foi casado com Elis Regina, propôs a Claudya um espetáculo intitulado “Quem Tem Medo de Elis Regina?”. Claudya já chamava atenção pela potência vocal, algo que, segundo consta, gerava inseguranças em Elis, cuja competitividade era famosa e temida. Não adiantou Claudya recusar a ideia do show, pois a história chegou aos ouvidos de Elis, que não tinha o apelido de Pimentinha à toa. “O desentendimento entre Elis e Claudya foi um dos momentos de descontinuação na carreira de Claudya, então uma jovem de 17 anos”, comenta Daniel Saraiva.

“A artista vinha ganhando destaque na imprensa, na TV Record e no mercado fonográfico. E esse desentendimento suspendeu essa ascensão. Entretanto, a artista soube se reerguer através dos festivais. Em suas memórias, ela mostra os altos e baixos dessa trajetória artística”, completa ele. Elis, que comandava “O Fino da Bossa” na TV Record, teria boicotado as participações de Claudya no programa. O primeiro disco de Claudya foi gravado em 1967. Ela ficou sem entrar em estúdio até 1971, quando lançou três álbuns de uma só tocada, incluindo “Jesus Cristo”, batizado com a canção arrasa-quarteirão da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Em 1983, a cantora estrelou a ópera-rock “Evita”, sucesso de público e crítica. “Ouvimos a voz de Claudya nas canções que gravou e agora podemos ouvi-la nas páginas deste livro”, celebra Santhiago.

Independência. A série “A Música de História Pública da Música do Brasil” contempla entrevistas, resenhas, leituras e oficinas que resultam em pesquisas e teses de mestrado, das quais já foram objeto de estudo nomes como os de Arrigo Barnabé, Fátima Guedes, Pena Branca & Xavantinho, Sidney Miller, Jane Moraes, Edy Star, Claudette Soares, Eliana Pittman, Jackson do Pandeiro, Théo de Barros, Clara Nunes e outros.

“Nosso projeto é inteiramente independente, como a maior parte do que se faz na produção cultural e editorial hoje em dia. Isso significa que nosso desejo e ambição de abraçar as histórias orais de muitos artistas acaba se conflitando com as condições objetivas de realização. Mas, até por isso, iremos priorizar os registros da trajetória de cantores, compositores e músicos que ainda não foram objeto de biografias ou mesmo de estudos acadêmicos”, informa Saraiva, que define a atitude “tanto como um gesto de reconhecimento do papel deles no desenvolvimento da música brasileira quanto como uma maneira de produzir documentação que possa amparar outras publicações no futuro”.

Reconhecimento. Saraiva aponta que “muitos dos artistas que tiveram papel relevante na construção da música brasileira não tiveram suas memórias publicadas”, fato este de que Claudya é exemplo. “Pedimos para que a cantora abrisse seu arquivo para que pudéssemos compor a obra gráfica, além de ter buscado fotos em arquivos e com fotógrafos que clicaram a artista nos últimos anos, compondo então um livro-depoimento”, ressalta. Autor de “Nara Leão: Trajetória, Engajamento e Movimentos Musicais” (2018), originado a partir de sua tese de mestrado pela Universidade Federal de São João del-Rei, Saraiva reconhece que “vivemos em um país em que a memória cultural não é valorizada”.

“O mercado editorial tem sofrido cada vez mais com as crises financeiras do país. Além disso, quando há trabalhos sobre cantores, geralmente são enfocadas figuras que tiveram mais destaque midiático durante a trajetória, e, com isso, vários artistas são invizibilizados. Então, nosso objetivo é focar nas trajetórias ainda não contadas. Consideramos que esse projeto é um dever de memória que nós pesquisadores temos que fazer, ainda mais em um momento de tanto obscurantismo, tanto na cultura quanto na educação”, arremata.

Fotos: Luan Cardoso/Divulgação; reprodução da capa do livro, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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