Amigo e bailarino de Rita Lee, Ronaldo Resedá teve uma morte controversa

*por Raphael Vidigal

“já que sentir vem antes/ quem prestar atenção
à sintaxe das coisas/ nunca te beijará completamente;
ser totalmente louco quando há Primavera
meu sangue aprova,/ e beijos são melhor destino
que sabedoria/ dama eu juro por todas as flores. Não chores
– o melhor gesto do meu cérebro é menos que/ o tremer de tuas pálpebras que diz
que somos um para o outro: então/ ri, sem medo em meus braços
pois a vida não é nenhum parágrafo/ E a morte eu acho não é nenhum parêntese” e. e. cummings

Tudo não passava de um truque. Embora a sombra ao fundo fosse mesmo a do bailarino Ronaldo Resedá (1945-1984), quando Rita Lee contracenava com ele por detrás das cortinas, a cantora era substituída por uma dançarina profissional, até que os dois voltassem ao centro do palco para receber os aplausos entusiasmados da plateia. Resedá com seu chapéu branco como todo o figurino; Rita com seus cabelos vermelhos. Ambos de corpos lânguidos.

A revelação aparece na autobiografia da “Ovelha Negra” da música brasileira, lançada em 2016. Rita e Resedá eram grandes amigos, parceiros de farra que, naqueles loucos anos 70, não dispensavam um coquetel de substâncias alucinantes, como ela também expõe nas páginas do livro. Outra afirmação de Rita é mais controversa. Ela dá a entender que o bailarino teria morrido de AIDS, ao lista-lo ao lado de Cazuza, Caio Fernando Abreu e de Renato Russo.

Morte. Em 1984, a AIDS ainda era um tabu social, embora o primeiro caso tenha sido noticiado nos Estados Unidos em 1981. No Brasil, o preconceito em torno do tema passou a associá-la a uma espécie de “câncer gay”, que só vitimava homossexuais. Ronaldo Resedá nunca assumiu publicamente sua orientação sexual, mas os buchichos em torno da vida particular do artista eram vários. Segundo Rita Lee, ele namorava um piloto gringo quando faleceu.

Segundo a versão oficial, Resedá morreu vítima de um tumor no cérebro. Uma matéria da revista Contigo, publicada na ocasião, afirma na manchete que ele poderia ter evitado a morte. De acordo com médicos ouvidos pela reportagem, ao invés de seguir recomendações de repouso, o cantor e dançarino saiu em turnê para recuperar o dinheiro investido em um disco que fracassou. O esforço teria sido fatal para que ele sofresse um AVC fulminante em setembro de 1984.

Balé. Resedá estava em Imperatriz, no Maranhão, para realizar um show, quando morreu aos 38 anos. O Brasil ficou em choque. Resedá era um produto da mídia, como lembrou o crítico musical Sérgio Martins, em artigo publicado na revista Veja. “No palco ele era desastroso”, escreveu. Natural do Rio de Janeiro, Resedá ouviu de uma colega que queria ser chacrete quando cursava arquitetura. Foi o incentivo para também seguir o sonho, a contragosto familiar.

O pai era militar, mas nada o impediu de abandonar a faculdade e se inscrever no curso de dança do lendário Lennie Dale, americano que coreografou Elis Regina e se integrou ao histórico grupo transformista Dzi Croquettes na década de 1970. Lá, as habilidades de Resedá ficaram evidentes. O corpo maleável e os passos exuberantes o levaram a ser comparado a Michael Jackson. Em 1974, estreou em um musical com a direção de Flávio Rangel. O astro brilhava.

Trampolim. Afável, carismático, galanteador, Resedá conquistava olhares dentro e fora dos palcos. Logo, se tornou professor de jazz de estrelas em ascendência como Marília Pêra, Zezé Motta, Lauro Corona, o que o ajudava a pagar o aluguel, já que as participações em espetáculos não correspondiam ao sucesso nas noites de boemia. Resedá se tornou um personagem da noite carioca e foi convidado por Nelson Motta a participar do festival de Saquarema.

Ali, ele experimentou, pela primeira vez, a atuação como cantor. O que deixou claro que seus dotes corporais eram muito maiores que os vocais. A imprensa o taxaria de “cover de cantor”, mas a imagem se tornava cada vez mais importante na indústria fonográfica, que rapidamente investiria em clipes para o programa Fantástico, o que tornava Resedá uma fruta disputada no mercado. Em 1976, ele participou do musical “Deus Lhe Pague” e provou novo sucesso.

Disco. Em 1978, Resedá apostou suas fichas em ser o dono do palco. Estreou um espetáculo em que cantava músicas de Roberto Carlos, Erasmo, Rita Lee, Angela Ro Ro e Eduardo Dussek, salientando o humor e a extroversão. Os passos que ele criava para acompanhar as canções eram o mais interessante do show. Tudo se concentrava na performance. E não demorou para a Som Livre, braço fonográfico da Globo, propor o lançamento de um compacto a ele.

Assim, naquele mesmo ano, chegava às prateleiras de todo o país, com o aporte da Rede Globo, um disco com duas faixas, uma delas de Paulo Coelho e Guto Graça Melo, da qual ninguém se lembra mais, e a outra com “Kitch Zona Sul”, de Lincoln Olivetti e Robson Jorge. Foi um estouro. Como estava em alta a tal música de discoteca, o ritmo foi escolhido para arranjar a canção, que, na sequência, entrou para a trilha da novela “Dancin’ Days”. Só sucesso.

Fama. No videoclipe de “Kitch Zona Sul”, veiculado pelo Fantástico, Resedá dançava com a bailarina Heloísa Millet, sem economizar no bailado, como era de seu feitio. Embevecido com a fama, ele entrou em estúdio para gravar o seu primeiro LP. “Sapateado” também integrou a novela “Feijão Maravilha”, enquanto “Marrom Glacê” virou a faixa-título do folhetim homônimo, na divertida faixa das sete. A capa do disco trazia o nome do astro imitando glacê.

Rita Lee e Roberto de Carvalho contribuíram com “Pif-paf” e “Bobos da Corte”, segundo ela uma canção com enfoque “gay friendly”. O restante do repertório pouco acrescentava. Eram canções fabricadas, descartáveis, feitas para dançar na pista. E dançaram. Na ocasião, Resedá disse: “Atualmente, não estou envolvido com ninguém, por causa de tudo que vem acontecendo comigo. E nem quero que pinte um amor, por enquanto. A minha preocupação maior é me tornar popular, entrar de cabeça, pra valer, na minha profissão…”.

Declínio. De fato, o dançarino perseguiu o sucesso como ninguém. O último ponto acima da curva em sua trajetória foi a participação por trás das cortinas com Rita Lee em “Baila Comigo”, no especial da TV Globo, e a inclusão da irreverente “Plumas e Paetês” na trilha da novela de Cassiano Gabus Mendes, mais uma contribuição da deliciosa dupla Dussek-Luiz Carlos Góes. Os anos 80 começavam e Resedá declinava. Tentou atuar na Record, na TV Educativa.

Os fracassos se acumulavam e a falta de estrutura emocional para lidar com aquela montanha-russa carregava o habilidoso dançarino para o buraco. Bancou um disco independente com os próprios recursos, que nunca foi lançado, e se afundou em dívidas. A vida de excessos cobrava seu preço. Resedá se recusava a aceitar que havia sido descartado pela indústria que, um dia, o idolatrou, como um típico produto da cultura de massa. Aos 38 anos, morreu como se a sua juventude tivesse sido roubada, buscando uma ilusão…

Foto: Som Livre/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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