Finalistas, Argentina e França perderam para árabes na Copa do Catar

*Raphael Vidigal Aroeira

Um leve toque de esquerda, no contrapé do goleiro, e um chute potente para estufar as redes no ângulo, reafirmaram o poder do futebol de realizar o improvável. Foi graças a esses dois lances que Tunísia e Arábia Saudita chegaram a façanhas inacreditáveis, que já entraram para a história das Copas. Os dois países árabes venceram uma dupla de gigantes do futebol, bicampeões mundiais, que agora se digladiam entre si para saber quem será o primeiro a colocar uma terceira estrela no peito, arrebatando o troféu mais cobiçado do planeta-bola. Tudo na primeira Copa disputada no Oriente Médio…

Para se ter uma ideia do tamanho do feito, o príncipe da Arábia Saudita declarou feriado nacional após a equipe vencer, de virada, a Argentina de Messi, por 2 a 1, na estreia das equipes na Copa do Catar. E correu até o boato de que os jogadores seriam premiados com carros novinhos em folha. Antes da competição, a expectativa era que eles não conseguissem nenhum empate, somando mais derrotas a um histórico consolidado de reveses. Ao vencer a França por 1 a 0, a Tunísia colocou no bolso ninguém menos do que a atual detentora da taça, e se não fosse o gol da Austrália, avançava na Copa.

Parece mais do que coincidência o fato de que Argentina e França tenham sucumbido a Tunísia e Arábia Saudita na mesma edição em que o Irã bateu o País de Gales e lutou pela classificação às oitavas até a última rodada da fase de grupos e, claro, o Marrocos entrou definitivamente para os almanaques esportivos ao levar uma seleção africana pela primeira vez às semifinais, superando países como Bélgica, Espanha e Portugal. Em comum, a origem árabe. O barulho que essas torcidas provocaram fora de campo no Catar, nas arquibancadas, estava em perfeita sintonia com o desempenho nos gramados.

Elas se sentiam literalmente em casa. A Copa do Mundo disputada em território árabe, com todos os problemas relacionados a violências institucionalizadas, permitiu que uma outra cultura se abrisse ao futebol, e trouxe a sensação de que manter esses países isolados tende a reforçar tendências autoritárias. É na convivência e no contraditório que viceja a tolerância. Além da oportunidade de reconhecer, na diferença diante do outro, inúmeras semelhanças. Como, por exemplo, a paixão por esse esporte mágico que permite a vitória dos mais fracos. Nada disso impede a denúncia aos reais interesses da Fifa na situação, relacionados aos ganhos financeiros, e não propriamente a benefícios culturais.

Argentina e França duelam pela taça. Mas já há vencedores entre os árabes.

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Email

Comentários pelo Facebook

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade