*Raphael Vidigal Aroeira
“Ele vai com sua música dentro dos olhos fechados.
Quando chegar ao fim, abrirá os olhos e cantará sua música.
Vasta e só.” Cecília Meireles
A água deslizava pelo interior transparente das garrafas amarradas por barbantes com a fluidez de seu corpo lânguido, variando as alturas como um carrossel que se equilibra entre o sobe e desce dos potrinhos. Os olhos do garoto faiscavam diante daquele acontecimento “lúdico e mágico”. Márcio Borges tinha 7 anos quando o irmão Marilton, aos 10, expressava “um dom musical muito grande” nas posições que encontrava no cavaquinho e na escala musical improvisada com barbantes e garrafas cheias d’água. Agora aos 80, completados neste dia 31 de janeiro, ele ainda guarda “com bastante clareza” essa epifania na memória.
Mas o parceiro de Bituca, Beto Guedes, Toninho Horta, Fernando Brant, Wagner Tiso e Ronaldo Bastos na fundação do Clube da Esquina e em canções que mudaram o curso da música brasileira, vide “Vera Cruz”, “Para Lennon e McCartney”, “Tudo Que Você Podia Ser”, “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, “Equatorial”, “O Que Foi Feito De Vera”, e tantas outras, convive desde novembro com um vazio no peito, resultado da perda irreparável do irmão Lô Borges, o mais recorrente melodista para suas inspiradas letras. “Depois da passagem do Lô, fiquei um pouco sensibilizado de voltar a BH”, comenta, incapaz de conter a voz embargada.
“Equatorial” (clube da esquina, 1967) – Lô Borges, Beto Guedes e Márcio Borges
Alguns músicos não acreditavam, uns riam e outros ficavam sem saber o que fazer. Sem contar aqueles que simplesmente se recusavam a tocar. A indicação “quelque chose” em determinado momento da partitura, traduzida literalmente do francês para o português como “qualquer coisa”, deixou em maus lençóis a orquestra do conservatório da escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), convocada para participar do I Festival Estudantil da Música Popular Brasileira. O ano era 1967.
“Falei com eles: ‘Afina o instrumento, dá uma pancada na borda do prato de bateria, faz um barulho’. A ideia era essa, gerar um efeito. Poderia ter escrito isso de maneira mais inteligível, mas a gente era tudo garoto na época”, recorda Nelson Ângelo, responsável pelo arranjo inusitado para “Equatorial”, inscrita pelos autores Lô Borges, Beto Guedes e Márcio Borges na competição universitária. A música seria regravada por Lô e Samuel Rosa posteriormente.
“Crença” (clube da esquina, 1967) – Márcio Borges e Milton Nascimento
Um samba ao estilo bossa nova, “Eu e o Violão”, com Marcelo Ferrari, foi a primeira letra de Márcio Borges, porém “não vingou muito, ficou meio encostada”. O parceiro integrava, com Bituca, Wagner Tiso e Marilton Borges, o grupo Evolusamba, que se inspirava no quarteto vocal Os Cariocas. “Para valer mesmo, considero minhas primeiras letras as três que fiz ao mesmo tempo com Milton”, pontua Márcio. Ele se refere a “Paz do Amor Que Vem” – lançada por Beto Guedes com o título de “Novena” –, “Crença” e “Gira Girou”, a última finalizada quando os primeiros raios de sol despontavam no céu. “Fomos dormir de manhãzinha, satisfeitos com a vida”, lembra.
“Vera Cruz” (clube da esquina, 1968) – Márcio Borges e Milton Nascimento
Cantado por Elis Regina e Milton Nascimento, o compositor Márcio Borges experimentou “emoções indescritíveis e intensas, das lágrimas às sutilezas que se transformaram ao longo do tempo em memória afetiva”. “Vera Cruz”, que levou Dilma Rousseff ao choro, atormentou Bituca e Márcio durante 15 dias, até que o cantor decidiu levar a caderneta recheada de possibilidades de letras ao Rio. Lá, ele e Ronaldo Bastos destrincharam em meia hora a canção, e deram a ela o seu formato final. Conhecido pela espirituosidade, Bastos inventou uma brincadeira inspirada num famoso guincho de BH, conhecido como Socorro Costa, que passou a denominar a entidade responsável pelas intervenções que destravavam os bloqueios criativos dos amigos. “Nada que merecesse parceria, eram colaborações”, diz Márcio, que auxiliou em “Amor de Índio” com um único verso: “Abelha fazendo o mel/ Vale o tempo que não voou”.
“Para Lennon e McCartney” (clube da esquina, 1970) – Márcio Borges, Lô Borges e Fernando Brant
“Márcio (Borges), Lô (Borges) e Fernando (Brant)… Posso definir os três numa só palavra: coração. E o que eles trouxeram de único para mim e para minha vida é uma coisa chamada amizade. Isso sim é uma das coisas mais importantes na minha vida. Sem amizade não consigo fazer nada, nem atravessar a rua”. A afirmação é de Milton Nascimento que, entre os amigos, sempre foi intimamente chamado de Bituca, e, em 1970, lançou uma parceria do trio que se tornou um de seus grandes sucessos. “Para Lennon e McCartney” explicitava no título a influência dos Beatles sobre o Clube da Esquina, mas deixava claro em seu verso final: “Sou do mundo/ Sou Minas Gerais”. E a música ganhou uma regravação da cantora Célia, no ano de 1971.
“Tudo O Que Você Podia Ser” (clube da esquina, 1972) – Lô Borges e Márcio Borges
Eventos de grandes proporções são, modernamente, chamados de hecatombes, de que são exemplos alguns desastres naturais, como furacões, enchentes e terremotos. Na origem, a palavra se referia a um sacrifício de centenas de animais oferecidos aos deuses na Grécia Antiga. Mas é no primeiro sentido e positivamente que Lô Borges a utiliza para definir o Clube da Esquina, movimento do qual ele foi um dos pilares, ao lado de Milton Nascimento. “Na época, o que aconteceu foi uma hecatombe. E milhões de pessoas nos adoram até hoje. A obra que a gente fez vem passando de geração para geração”, afirma Lô.
A constatação encontra eco nos trabalhos de uma geração vindoura. E tudo teve início quando o próprio Lô era ainda uma promessa da música brasileira. Aos 20 anos, ele foi bancado por Bituca, que bateu de frente com executivos do ramo. “A ideia de um disco duplo e com um ilustre desconhecido como eu não foi bem aceita, mas aí o Bituca ameaçou oferecer o disco para outra gravadora, e eles tiveram que me engolir para não perdê-lo”, rememora Lô. No álbum estava “Tudo Que Você Podia Ser”, parceria de Lô com Márcio Borges.
“Um Girassol da Cor de Seu Cabelo” (clube da esquina, 1972) – Lô Borges e Márcio Borges
“Geralmente quando estou muito triste não componho porque evito sentir tristeza e a composição traz a tona os sentimentos”, admite Mallu Magalhães. Atualmente, a autora de sucessos como “Velha e Louca” e “Tchubaruba” vive em Portugal com o marido, o também músico Marcelo Camelo (ex-Los Hermanos), produtor de seu último disco. “Sim, vejo uma leveza na minha composição, uma ausência de agressividade e vejo que trabalho, geralmente, com um ânimo mais contemplativo, uma intenção de compreender e ver beleza na vida, com alguma melancolia”, afiança. O início de tudo dá outra pista preciosa. “A primeira música que me lembro de cantar é ‘Um Girassol da Cor de Seu Cabelo’ (de Lô Borges e Márcio Borges) na gravação feita pelo Milton Nascimento. Também cantava muito ‘O Leãozinho’ do Caetano”, entrega Mallu.
“Vento de Maio” (clube da esquina, 1979) – Márcio Borges e Telo Borges
Não é preciso muito para compreender que Elis Regina (1945-1982) é a maior cantora brasileira de todos os tempos: basta ouvi-la. Nascida em Porto Alegre, a gaúcha morreu aos 36 anos, vítima de uma overdose de álcool e cocaína. O disco “Tom & Elis”, de 1974, é considerado pelo crítico musical Hugo Sukman como “uma homenagem da nossa maior cantora ao nosso maior compositor”. Em 2020, a baiana Illy lançou o álbum “Te Adorando Pelo Avesso”, homenagem a Elis, que, em fins da década de 1970, apresentou ao Brasil a música “Vento de Maio”, parceria de Márcio Borges e Telo Borges, que contou com os vocais de Lô na emocionante faixa, e já entrou para a história da MPB.
“Benke” (clube da esquina, 1990) – Milton Nascimento e Márcio Borges
Milton Nascimento nunca escondeu os fortes traços de influência sacra e barroca em sua música. Protagonista e propagador do “Clube da Esquina”, ele compôs com o companheiro de estilo Márcio Borges a música “Benke”, em 1990. O título é uma homenagem a uma criança indígena, do povo Kampa, e é “dedicada a todos os curumins e todas as raças do mundo”, afirma Milton. Os versos buscam atentar o homem da cidade para os ensinamentos trazidos pelos nativos, o olhar que muitas vezes escapa à ternura das matas, da lua branca e de todos os ambientes desse planeta que são recheados de natureza.
“Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” (MPB, 2003) – Lô Borges e Márcio Borges
Na opinião de Márcio Borges, o interesse contínuo pela música gerada por garotos que eram fãs de Beatles e uniram referências da tradição barroca à bossa nova tem a ver com o próprio reconhecimento internacional que o Clube da Esquina conquistou. “Foi um acontecimento que influenciou a música popular do mundo todo. A influência da obra de Milton e seus parceiros para os compositores de jazz americanos e europeus e para a música latino-americana é incomparável”, assegura Borges. Em 2003, ele compôs com o irmão Lô Borges a balada romântica “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”, nos moldes do Clube da Esquina, lançada por Milton Nascimento no revigorante disco “Pietá”.
“Povo do Sol” (MPB, 2024) – David Tygel e Márcio Borges
O equívoco acontece com frequência, e nem é tão injustificado assim. Afinal de contas, apesar do sotaque carioca de seus integrantes, “muita gente acha” que o Boca Livre é “um grupo mineiro”, admite o capixaba Zé Renato, que adotou o Rio de Janeiro em sua mocidade, e, nos últimos tempos, radicou-se em São Paulo. Da sonoridade ao repertório, desde o primeiro álbum, de 1979, a música do quarteto vocal conversava com a obra de Toninho Horta, Nelson Angelo, Fernando Brant (1946-2015), Cacaso (1944-1987) e Milton Nascimento. Logo, não deixa de ser “uma feliz coincidência” que a volta aos palcos para a estreia da turnê “Rasgamundo”, álbum recheado de inéditas que acaba de ser lançado, ocorra em Belo Horizonte. A mais contemporânea canção do repertório, no entanto, é “Povo do Sol”, de David Tygel e Márcio Borges, apelo em defesa da natureza e dos povos originários, que recobrou sua trágica contundência em razão das enchentes no Rio Grande do Sul.


