*por Raphael Vidigal Aroeira
“Belo Horizonte
Atrás do monte
Rosinha deu pro Leitão
Arrependida se pôs a chorar
Jurando que nunca mais ia dar…” Noel Rosa
Entre proseccos e canapés, incorporado à nata da aristocracia local, o compositor improvisou versos sobre a conhecida melodia de “I’m Looking Over a Four Leaf Clover”, de Mort Dixon e Harry Woods, para saudar a cidade que o acolhera em meio ao tratamento daquela insistente tuberculose. “Belo Horizonte/ Deixa que eu conte/ Bom mesmo é estar aqui…”, entoou, para comovido aplauso da distinta plateia.
Mais tarde, e muito mais à vontade, com a gravata afrouxada e o chapéu descaindo sobre a cabeça já cheia de conhaque, tendo um maroto cigarro preso pelos morosos lábios, apoiado em malandros e prostitutas da zona boêmia, ele alterou a letra a fim de torná-la, na palavra de seus biógrafos, “apimentada e pornográfica”. Agora, de trás do monte dessa Belo Horizonte, Rosinha e Leitão praticavam atos libidinosos e sensuais…
A passagem do Poeta da Vila pela capital mineira, que rendeu a paródia citada acima, inspirou o romance “Cordiais Saudações, Noel Rosa”, que o jornalista Jorge Fernando dos Santos lança neste sábado (5), com direito a show do grupo vocal OverVozes sob a batuta de Hudson Brasil, e que também será atração da Flipoços (Festival Literário Internacional de Poços de Caldas) no dia 28 de abril. Se tudo começou no centenário de nascimento de Noel, em 2010, a estória veio a cabo decorridos 90 anos de sua presença pelos bares e leitos de BH, entre janeiro e abril de 1935.
Ao se dar conta da efeméride, o escritor resgatou o texto do musical inédito, cujo projeto de encenação chegou a ser aprovado em edital, mas acabou não saindo do papel devido ao cálculo eleitoral do então prefeito, que “reduziu o teto de patrocínios para beneficiar mais concorrentes”. Passado tanto tempo, Jorge Fernando precisou de “menos de um mês” para dar nova forma àquele fato histórico que sempre atiçou a sua curiosidade.
Quando foi que você descobriu a música de Noel Rosa e como esse primeiro contato te impactou?
Meu avô paterno tocava violão, era fã de Noel e tinha muitos discos em casa. Eram LPs e aquelas bolachas de 78 rotações. Provavelmente tinha algum disco dele. Na adolescência, fiz aquela coleção da Abril chamada “História da MPB”, cujo primeiro fascículo era dedicado ao Poeta da Vila. Ouvi o disquinho de vinil que vinha como encarte e me tornei fã incondicional desse sambista, cuja genialidade me influenciaria como letrista. Sua dicção musical é única, repleta de harmonias inovadoras e letras bem-humoradas de rimas riquíssimas. Noel foi um pioneiro em vários sentidos e todo mundo que o conhece sabe disso. Não é à toa que ele continua sendo gravado, mesmo tendo morrido 88 anos atrás.
Como surgiu a ideia de escrever um livro ficcionalizando a passagem do músico pela capital mineira?
No centenário de nascimento de Noel Rosa, em 2010, escrevi um musical que permaneceu inédito, sobre sua passagem por Belo Horizonte. O projeto de encenação por um grupo de teatro local chegou a ser aprovado no Fundo Municipal de Cultura, mas era ano de eleições e o prefeito Fernando Pimentel reduziu o teto de patrocínios para beneficiar mais concorrentes. A verba que pedimos ficou acima do novo limite e fomos automaticamente desclassificados. Ano passado, me dei conta de que em 2025 faria 90 anos da presença de Noel em BH. Reli o texto do musical, imaginei novas situações e escrevi o romance em menos de um mês. Quando soube que a editora Patuá estava recebendo originais, enviei o texto pra eles. Quatro dias depois, o editor Eduardo Lacerda me enviou um e-mail, dizendo que o romance tinha sido aprovado. Foi tudo muito rápido, inclusive a publicação do livro.
Porque a escolha de criar uma história que une o ficcional a fatos ocorridos e como isso acontece no livro?
Sempre gostei de ler romances-históricos, a começar pelos livros do meu saudoso amigo João Felício dos Santos, autor de obras que marcaram época, como “Ganga Zumba” e “Chica da Silva”. No ano passado, li a novela “O dia em que os Beatles visitaram Belo Horizonte”, do meu amigo e grande escritor Ronaldo Guimarães. Adorei a história e me lembrei da peça sobre o Noel. Também me lembrei do filme “Meia-noite em Paris”, do meu ídolo Woody Allen, que nos leva aos “anos loucos”, com todos aqueles meus ídolos da chamada Geração Perdida. Como me incomodava o fato de existirem poucos registros da presença de Noel em BH, arregacei as mangas e em menos de um mês adaptei o texto teatral para a forma romanceada. Trata-se de uma mistura de realidade e ficção, preenchendo com imaginação as arestas deixadas pelos poucos registros da presença de Noel em BH. De certa forma, convido o leitor a viajar à então decantada “Cidade Jardim”, em companhia do artista que veio se tratar de tuberculose. O livro descreve alguns postais que tempo e a especulação imobiliária ajudaram a apagar da memória dos mineiros. Nossa cidade já foi mais bonita e Noel a conheceu por dentro naquela época.
De que maneira você estruturou a narrativa do livro e quais episódios e encontros narrados você destacaria?
Incluindo a introdução e a coda, ou epílogo, escrevi 26 capítulos, que correspondem de certa forma aos 26 anos vividos por Noel. Cada um desses capítulos tem o nome de uma música dele, devidamente contextualizada na passagem narrada. É um livro musical e muito bem-humorado, como imagino que tenha sido Noel Rosa pelo pouco que se sabe dele. Há encontros reais, nos quais imaginei seus diálogos com figuras como Rômulo Paes, Delê Andrade, José de Oliveira Vaz, Nelson Orsini, Dr. Mário Vaz de Melo e outras figuras da Belo Horizonte dos anos 30. E há encontros fictícios mas não improváveis, como aquele com Carlos Drummond de Andrade no finado Café Estrela, na Rua da Bahia. Tem até uma participação de Noel no Salão Vivacqua, a convite do poeta Achilles Vivacqua, com direito a um rápido encontro com a jovem Dora, a futura vedete Luz del Fuego, irmã do anfitrião.
No plano da realidade, o que significou a passagem de Noel Rosa por Belo Horizonte e como isso afetou sua música?
Noel permaneceu em BH entre janeiro e abril de 1935. Ficou 12 dias internado na Santa Casa e o restante permaneceu na casa dos tios Carmem e Mário Brown, no bairro Floresta. Durante esse período, segundo seus biógrafos João Máximo e Carlos Didier, ele mergulhou fundo na boemia local e compôs 12 músicas, duas delas em parceria com o mineiro Hervé Cordovil, que morava em Niterói mas veio visitar o pai na mesma época. Noel também escreveu uma carta em forma de poema endereçada ao médico carioca Edgar Mello, mais tarde musicada por João Nogueira. O samba João Ninguém, por exemplo, foi composto em BH. Reuni sete dessas músicas numa playlist em QR code impresso na contracapa do livro, para quem quiser ouvir. Noel fez muitas amizades na cidade, entre as quais se destacaram os saudosos músicos Rômulo Paes e Delê Andrade, pianista e maestro que tocava no dancing Montanhez.
Há alguma canção de Noel que é sua predileta ou que no momento esteja mais na sua cabeça? Porquê?
Gosto de boa parte das músicas de Noel Rosa, com destaque para “João Ninguém”, “Com que roupa”, “Gago apaixonado” e “Cordiais saudações”, que deu nome ao livro. Noel foi um gênio precoce. Compôs quase 300 canções num prazo de seis anos, que foi o quanto durou seu trabalho de compositor. Infelizmente, a tuberculose ceifou sua vida quando tinha 26 anos e meio. Ele foi o fundador da moderna MPB. Além de aproximar o samba do morro e a canção que era feita pelos autores letrados de classe média, Noel deu nova dicção ao fraseado do samba. Até então, o samba era algo folclórico, ligado à cultura das ruas e dos terreiros de candomblé das tias baianas, sendo a mais famosa delas a doceira e mãe-de-santo Tia Ciata.
Já as músicas da classe média tinham letras rebuscadas, cheias de romantismo e salamaleques parnasianos. Ao juntar a voz do morro à música urbana, ele quebrou com tudo isso, dando às suas letras uma dicção coloquial. Seus sambas são verdadeiras crônicas da vida suburbana, a exemplo das reportagens do seu contemporâneo João do Rio, que já era moderno muito antes da Semana de 22 realizada em São Paulo. E Noel influenciou quase tudo que veio depois dele na música brasileira. Foi o primeiro a usar a expressão “bossa” numa letra de samba. Não é por coincidência que Tom, Vinícius e João Gilberto criaram a Bossa Nova décadas depois de sua morte. Isso apenas ecoou a obra de Noel, compositor por eles reverenciado. Sem Noel certamente não teríamos um Chico Buarque, por exemplo, que foi comparado a ele em várias ocasiões.
Como o fato de ter vivido tão pouco afetou a obra e a posterior repercussão de seu legado na música brasileira?
Noel viveu pouco e produziu sua obra num curto espaço de tempo, mas foi beneficiado pela chegada do rádio e das primeiras gravações em disco ao país. Estava no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas. Entre elas o Ademar Casé, pioneiro da radiodifusão brasileira. O fato de ter morrido muito cedo, o que não deixa de ser uma tragédia, de certa forma contribuiu para que se construísse uma lenda em torno dele. Nem chegou a completar 27 anos, a idade fatal dos roqueiros que teriam morte precoce décadas depois. Como escreveu Edu Krieger, no cordel “Aos vinte e sete”, rock’n roll pra valer foi Noel Rosa.
Quais os seus planos para 2025? Possui projetos de outros livros referentes a personagens da música brasileira?
O ano começou mais quente do que eu esperava, não só na questão climática como também na minha rotina literária. Acabo de vencer o Prêmio Pena de Ouro, da Casa Brasileira de Livros, com o conto “E por falar no diabo”. Foi o quinto ano dessa premiação e concorri com mais de 2 mil candidatos, tendo como jurados representantes de nove países de língua portuguesa. Os contos premiados serão publicados numa antologia. Por sorte, tive a publicação de “Cordiais saudações, Noel Rosa” aprovada em quatro dias e estou participando da antologia “Poetas jornalistas” organizada pelo Carlos Barroso, presidente da Casa de Jornalistas. Em abril vou participar da Flipoços, falando sobre Noel e Geraldo Vandré, que fará 90 anos em 12 de setembro. Sobre ele escrevi a biografia “Vandré – o homem que disse não”, lançada há dez anos.
A música brasileira sempre me fascinou, tanto que me tornei compositor, tendo mais de 100 canções gravadas em parceria. Ano passado lancei pela Editora Lê o “Cordel da MPB”, no qual Noel, Vandré e dezenas de outros compositores são homenageados. Em 2023 publiquei “Belo Horizonte em letra e música”, indicado ao Prêmio da Academia Mineira de Letras. Também sou coautor de “Jaceguai, 27”, que narra a história do Movimento Artístico Universitário, um livro que infelizmente teve péssima divulgação. E eu já tinha lançado “A Turma da Savassi”, no qual o compositor Pacífico Mascarenhas é o personagem principal. Mesmo sem querer, a música sempre cruza o meu caminho e acabo escrevendo sobre ela. Pode ser que eu faça outros livros sobre a MPB e seus personagens, mas ainda não tenho nada em mente, a não ser divulgar esse novo romance.
Ilustração: Acir Piragibe