*Raphael Vidigal Aroeira
A imagem angelical, de uma pureza branca e loira é tão impressionante quanto os olhos inquietos que acompanham a princesa Diana no longa-metragem “Spencer”, cujo título pega emprestado o nome de solteira da protagonista, e que acaba de chegar às plataformas digitais. Kristen Stewart compõe uma Diana diferente das que o mundo se habitou a ver, ainda que tenha sido voyeur privilegiado da trajetória dessa princesa peculiar, que colocou em cheque os rígidos padrões da família real inglesa e se tornou alvo preferido dos paparazzi.
A morte trágica, aos 36 anos, em um acidente de carro, quando era perseguida por fotógrafos ávidos em expor a sua intimidade, foi o ponto final de uma vida marcada por atribulações, cheia de admiração e confrontos. O longa-metragem de Pablo Larraín se assume como espécie de fantasia sobre uma tragédia real, e elabora as próprias teses referentes ao martírio de Diana, aprisionada por uma família que, em suma, não aceitava seu jeito de ser. Como se sabe, tudo na realeza é imposto e deve ser aceito com sorriso nos lábios e dócil falsidade.
A senha dessa situação está na fala do príncipe Charles. É preciso ter uma imagem pública e outra privada, que nunca devem se encontrar. O problema é que Diana não consegue conviver com esse duplo. No roteiro de “Spencer” é mais uma questão de incapacidade mesmo, dado o retrato sombrio que pinta da princesa, com direito a alucinações e surtos de bulimia – distúrbio do qual Diana realmente sofria. Com pitadas de fatos verdadeiros, que ajudam a corroborar a história, o diretor dá asas à imaginação, e atinge bons resultados.
Frequentemente, a captação de imagens é responsável pela força da narrativa, dispensando diálogos que nada acrescentariam, assim como a música, que surge como principal indutora das emoções no filme – a iminência de que algo aconteça mantém o espectador numa tensão que colabora com uma trama paralisante em muitos momentos. A relação com os filhos, com a camareira de quem se sente cúmplice, oferece alguns respiros, que não duram muito tempo.
Nem sempre, o longa resiste aos lugares-comuns, como na conversa de Diana com o homem estipulado para vigiá-la, onde ela utiliza a metáfora do cavalo selvagem e se porta como uma heroína altruísta: não quer que ninguém morra por ela. E nem quer morrer pelos outros. Nada que comprometa o conjunto do filme. Outro trunfo é a atuação de Timothy Spall, o tal major que aparece como essa sombra de Diana. Ele a flagra nos aposentos do palácio real, escapando.
Com poucos gestos e expressão carrancuda, Timothy é capaz de dizer tanto quanto os olhos da princesa e sua obsessiva busca pela história da rainha Ana Bolena, decapitada pelo marido, com quem ela se compara. Ao fim, o que importa em “Spencer” não é a conclusão – um tanto solar –, mas o caminho que sua protagonista percorre até ali, e a temática que acaba sendo comum a todos: a solidão da existência humana e a necessidade de nos sentirmos genuinamente amados. Parece um tanto edificante, a redenção para a agonia.
Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.


