Carlos Cachaça foi parceiro de Cartola e nome fundamental do samba

*Raphael Vidigal Aroeira

Carlos Moreira de Castro é um nome anônimo, mas Carlos Cachaça, a alcunha pela qual ficou conhecido, é famoso em todo o Brasil, graças a composições e parcerias com Cartola, Nelson Cavaquinho, Hermínio Bello de Carvalho e Zé da Zilda, todos parte, de alguma forma, da história da Mangueira, escola do seu coração. Nascido no Rio de Janeiro, no dia 3 de agosto de 1902, Carlos Cachaça morreu no dia 16 de agosto de 1999, pouco tempo depois de comemorar o 97º aniversário, com quase cem anos. Sua contribuição para a música brasileira e, sobretudo, o samba, pode ser medida pela qualidade dos intérpretes que o regravaram, qual sejam: Paulinho da Viola, Beth Carvalho, e etc.

“Não Quero Mais Amar a Ninguém” (samba, 1936) – Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda
Com o sucesso da escola de samba da Mangueira, Cartola se tornou conhecido de figuras famosas como os cantores do rádio Mário Reis e Francisco Alves, o sambista e poeta da Vila, Noel Rosa e o maestro Heitor Villa-Lobos. No ano de 1936, sua música “Não Quero Mais Amar a Ninguém”, em parceria com o amigo Carlos Cachaça e o bamba Zé da Zilda, recebeu prêmio no desfile da escola, e um ano depois foi gravada por Aracy de Almeida. Mestre de harmonia da Estação Primeira, Cartola vendia seus sambas, mas não abria mão da autoria.

Por essa época, ele uniu seus trapos com Deolinda, uma mulher mais velha, casada e com uma filha. Vizinha de Cartola, Deolinda o ajudava quando estava doente, e aos poucos o carinho que nutria foi se transformando em outro sentimento. Os dois resolveram morar juntos em um barraco com lugar para a filha e o pai de Deolinda. Com o passar do tempo, a casa passou a receber mais moradores, e um dos mais constantes era justamente Noel Rosa, nas noites em que tomava porres homéricos ao lado de Cartola.

Por uma triste ironia do destino, os anjos do morro levaram Deolinda para longe do menino que ela aprendeu a cuidar e a amar, e a música que ele havia composto para o Carnaval simbolizava agora o início de sua longa quarta-feira de cinzas. Cartola estava indo embora de Mangueira, desiludido com a vida e com o samba, e sentenciava: “Não quero mais amar a ninguém/ Não fui feliz, o destino não quis/ O meu primeiro amor/ Morreu como a flor, ainda em botão/ Deixando espinhos que dilaceram meu coração…”.

“Fala, Mangueira!” (samba, 1968) – Cartola, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça
No ano de 1938, antes de ser expulso da corporação, Nelson Cavaquinho conseguiu dar baixa em seu cargo na polícia, separou-se de Alice, sua mulher à época, e entregou-se definitivamente ao samba e à boêmia. Em 1952 foi morar em Mangueira, onde permaneceu por um ano e meio, e, em 1968 dividiu com Cartola, Clementina de Jesus, Carlos Cachaça e Odete Amaral os vocais de “Fala Mangueira”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho.

Esse álbum foi outro marco da produção nacional do período, por reunir, de uma só tacada, quatro dos bambas mais expressivos dos morros cariocas, além de Odete Lara. Clementina de Jesus, Cartola, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça de uma só vez é para quem não tem medo de embriagar-se de toda a nossa arte natural.

“Alvorada” (samba, 1968) – Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho
Assim que chegou ao morro de Mangueira, Cartola ficou amigo de Carlos Cachaça. Frequentando as zonas boêmias sempre que podia, foi apresentado aos malandros do local e se tornou um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, em menção ao fato de ser a primeira estação onde parava o trem que partia da Central do Brasil. Inspirado por lembranças de sua infância, quando assistia às manifestações carnavalescas do “Rancho dos Arrepiados”, tingiu com elegância a combinação entre um “caule verde” e uma “rosa na ponta”, como costumava dizer.

A escola que ajudou a fundar, e o morro que lhe deu inspiração para tal, seriam homenageadas em várias de suas canções, uma delas lançada por Odete Amaral em 1968 e imortalizada em 1972 no canto de brisa de Clara Nunes: “Alvorada” foi composta em uma das madrugadas em que Carlos Cachaça e ele desciam o morro do Pendura a Saia.

Os dois se impressionaram com a beleza dos primeiros raios de sol que surgiam no horizonte e iluminavam a paisagem sofrida de seus moradores. Ali começaram a ser coloridas as estrofes e melodias que ganhariam pinceladas de Hermínio Bello de Carvalho, e representavam a admiração dos autores pelo morro carioca.

“Silêncio de Um Cipreste” (samba, 1979) – Cartola e Carlos Cachaça
“Eu definiria o Cartola como um dos grandes compositores brasileiros. Ele foi muito importante não só para o samba, mas para a música brasileira em geral. Ele é um dos poucos compositores que possui uma assinatura musical, ou seja, você reconhece as músicas dele por meio da linha melódica. Isso, por si só, já é de uma genialidade muito grande e representa a autenticidade e a qualidade do compositor”, elogia Teresa Cristina, que homenageou Cartola em 2017. Como vaticinou Cartola, no samba “Silêncio de Um Cipreste”, parceria com Carlos Cachaça, de 1979: “Todo mundo tem o direito de viver cantando…”.

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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