Luisa Doné lança música sobre a saudade e prepara o primeiro álbum

*Raphael Vidigal Aroeira

Luisa Doné tinha cinco anos de idade quando gravou pela primeira vez a música “Luiza”, de Tom Jobim, lançada muito antes, em 1981, acompanhada por seu pai ao violão. O registro serviu para a artista gravar a memória no coração. “Tenho essa gravação até hoje e, inclusive, canto essa música sempre!”, conta. Como já era de se esperar, ela teve o nome inspirado na canção de versos líricos e melancólicos: “Luiza, eu sou apenas um pobre amador/ Apaixonado, um aprendiz do teu amor…/ Acorda amor…/ Que eu sei que embaixo desta neve mora/ Um coração/ Vem cá, Luiza, me dá tua mão…”.

A música esteve sempre em seu dia a dia. “Sempre foi algo muito natural pra mim, então nunca me visualizei sem ela”, confirma. Luisa relembra que começou a cantar e tocar piano ainda muito novinha, com o incentivo da família e, principalmente, do pai, que também é músico. Ela decidiu trilhar de vez essa estrada cheia de notas, acordes e dissonâncias ao atingir a maioridade. Ali, foi um momento crucial. Aos 18 anos, abandonou a faculdade de cinema que cursava há oito meses e se entregou à música, “haja ou que houver”, como ela sublinha. Prestou vestibular e foi aprovada na UFOP, onde já chegou com uma bagagem de bossa nova, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Michael Jackson, Burt Bacharach, Chet Baker, dentre outros clássicos do jazz, do pop e da MPB.

Formação. Cantora e instrumentista, Luisa foi aplicada à música erudita ainda na infância, mais uma gama de suas referências. Dos contemporâneos, ela se inspira em Tim Bernardes, Maro, Céu, Marina Sena, Billie Eilish, Castello Branco, etc. “Gosto muito, tanto musicalmente quanto da maneira intensa e verdadeira com que trabalham sua música e vivem sua arte”. Todo esse caldeirão sonoro e comportamental desemboca em uma artista que preserva a própria identidade, como se nota em “eu não sei matar saudade”, o mais novo lançamento de Luisa Doné, e que anuncia um EP programado para novembro.

Luisa nasceu em Ponte Nova, interior de Minas, terra de João Bosco, outro ás da MPB, morou em Belo Horizonte e Ouro Preto e, atualmente, reside em Campinas, São Paulo. A saudade de quem parte e de se sentir em constante travessia, portanto, permaneceu como um sentimento natural para ela. De cidades e pessoas, ela retirou experiências que transformou em música. “Ponte Nova, minha cidade natal, já estava me incentivando de diversas maneiras, tanto a prefeitura quanto a escola onde estudei, as escolas de música e minha primeira professora de piano, Dulce Baião, sempre me deram espaço para compartilhar minha música e me desenvolver”, agradece. BH é outra lembrada.

Inspiração. “A cena musical de Belo Horizonte foi essencial para que eu pudesse desenvolver minhas músicas. Produzi duas autorais com o Pedro Gomes, baixista e produtor. Augusto Cordeiro, violonista e compositor, sempre foi meu fiel escudeiro”, cita. Tudo isso aconteceu no início da sua carreira. “Não que eu ainda não esteja no início!”, diverte-se. Recém-saída do forno, “eu não sei matar saudade” nasceu em 2018. Luisa tinha 20 anos. “Escrevi ela para o meu marido, que, na época, era só o menino de quem eu gostava”, brinca. O relacionamento à distância, com ele em Campinas e ela em Ponte Nova, era uma constante. “Eu ficava muito nervosa quando ia ver ele, aí acabava que não conseguia matar a saudade”, constata Luisa. Os dois se casaram em fevereiro.

“Acho que saudade é um sentimento intenso e maior do que nossa capacidade de matar ela. A saudade sempre ganha, de uma maneira ou de outra, seja numa tristeza profunda ou numa lembrança gostosa”, reflete a compositora. Com voz doce e etérea, Luisa canta: “como é que mata essa bendita?/ alguém me mostra ou me explica/ não sei lidar com tempo limitado/ não sei se rio ou conto um caso/ se eu te reparo eu disparo/ não sei se saio ou fico em mim/ se eu abstraio e dou de boba/ você sorrindo rouba a cena toda”. A música acabou arranjada, mixada e masterizada pelo muso inspirador da letra, Ariston Espagnolo, hoje marido de Luisa, e, na origem, apenas o menino de quem ela gostava. Tudo, com exceção da voz inebriante, foi gravado no estúdio do casal.

Lançamento. O disco vindouro terá a temática “da espera e da saudade”. “Algo que vivi intensamente de 2016 a 2022”, ressalta. “Estou bem animada com esse trabalho! Até então, só tinha trabalhado com singles, estou animada com a ideia de lançar algo maior e mais estruturado”. E não para por aí. Para 2023, ela promete um álbum. “Estou muito feliz de começar a compartilhar a minha música com o mundo todo. O céu é o limite!”. Basta ouvir a voz de Luisa.

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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