70 anos sem J. Carlos: retrato de um Brasil racista, tropical e satírico

*por Raphael Vidigal

“A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nos pareceres.” Lima Barreto

A própria assinatura era um desenho e um comentário. Aproveitando as iniciais do nome, o ilustrador José Carlos de Brito e Cunha, conhecido como J. Carlos, criou uma face em que as letras faziam as vezes dos olhos, o ponto substituía o nariz e, logo abaixo, um risco preenchia o espaço da boca. Nada mal para quem, na primeira metade do século XX, foi a cara, o nariz e a boca da nação brasileira.

Carioca, o artista, dono de um grafismo único e inconfundível, trabalhou para revistas como Careta, Para Todos, Fon-Fon, O Malho e Tagarela de 1902, ano em que estreou aos 18 anos, até 1950, quando cumpriu o destino no palco: sofreu um acidente vascular cerebral e caiu sobre a prancheta na redação para não mais despertar, aos 66 anos. O Brasil perdia o autor de suas curvas e traços.

Cronista visual, J. Carlos tinha faro para a notícia, como convém ao bom jornalista. Previu a revanche da Alemanha que acarretaria numa Segunda Guerra Mundial e a dissolução do bloco dos países socialistas, a União Soviética. No papel de chargista, soube dizer o que os políticos insistiam em varrer para debaixo do tapete, satirizando, com especial prazer, o presidente Getúlio Vargas.

O deleite custou um ataque a seu local de trabalho logo que o caudilho gaúcho ascendeu ao poder. Sem dar trela para a intimidação, J. Carlos nunca negou o devido espaço para nosso hábito de sacanear o povo. E, com uma visão que combinava malícia e desejo, deu vida a personagens que se tornaram clássicas de seu repertório, caso da Melindrosa, importada dos ianques, que, sob sua tinta tupiniquim, adquiriu formas brasileiríssimas: o olhar sugeria a liberdade acalentada no corpo.

Eloquentes, sofisticados, exuberantes, os desenhos de J. Carlos saltaram aos olhos de Walt Disney, que o convidou para ser seu empregado. Ele declinou, mas inspirou o americano a criar o papagaio Zé Carioca. Ao retratar o Carnaval, o futebol e as praias cariocas como paixões de um país ardente e tropical, J. Carlos deixou escapar o preconceito da época contra negros, expondo o racismo que os relegava a condições disformes e animalescas em seu próprio desenho.

Decorrido mais de meio século de sua partida, a cintilação das cores e linhas plenas de vida, insinuando movimentos com truques escondidos em folhas de papel, teima em pulsar, nos lembrando de um Brasil que aspirava à modernidade sem se desvincular das correntes de seu passado escravocrata, patriarcal e machista. Parece piada que a discriminação siga tão atual, já o brilho é um mero artigo de colecionador de luxo, que, nas gavetas da memória, encontrará o tal J. Carlos.

Ilustrações: J. Carlos/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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