10 canções de Cacaso para acreditar no futuro do Brasil

*Raphael Vidigal Aroeira

“Meu futuro amor passeia — literalmente — nos píncaros daquela nuvem.
Mas na hora de levar o tombo adivinha quem cai.” Cacaso

Anárquico. Acadêmico. Artista. Intelectual. Boêmio. Disciplinado. Irônico. Todos esses adjetivos são utilizados por amigos, parceiros e parentes para se referir a Antônio Carlos de Brito, popularmente conhecido como Cacaso (1944-1987). Poeta, letrista, roteirista, desenhista e professor universitário, o mineiro de Uberaba criado no Rio faleceu há exatos 30 anos, vítima de um enfarte. Para quem não liga o nome à pessoa, são dele os versos de músicas famosas como “Dentro de Mim Mora Um Anjo” (1975), parceria com Sueli Costa gravada por Fafá de Belém, e “Lero Lero” (1978), feita com Edu Lobo.

“Carro de Boi” (canção, 1965) – Maurício Tapajós e Cacaso
Apesar de ter morrido precocemente, com apenas 51 anos, Maurício Tapajós assinou importantes canções da música brasileira, dentre elas “Mudando de Conversa”, com Hermínio Bello de Carvalho, “Pesadelo” e “Tô Voltando”, ambas com Paulo César Pinheiro, e “Carro de Boi”, com Cacaso, gravada por Milton Nascimento, em 1976, embora tenha sido composta uma década antes. “Cacaso precisava de mais, sempre. A obra dele é marcada pela multiplicidade de influências e pensamentos. Sua necessidade de expressão não estava fechada nas páginas de um livro. Ele atirou para a música, flertou com o cinema, colaborou em roteiros. Talvez a principal característica artística seja justamente essa transitividade pelas artes”, arrisca o cineasta PH Souza. Ele é o codiretor, ao lado de José Joaquim Salles, de “Cacaso na Corda Bamba”, cinebiografia lançada em 2016.

“Modinha” (modinha, 1966) – Maurício Tapajós, Hermínio Bello de Carvalho e Cacaso
Ouvir Elizeth Cardoso (1920-1990), principalmente em seus primeiros registros, nos lembra de um tempo em que qualquer disquinho de música brasileira contava com uma orquestra de dar gosto. Claro que a Divina, epíteto dado pelo compositor Haroldo Costa, estava longe de ser diminuta. Nascida há cem anos e morta há trinta, vítima de um câncer no estômago, Elizeth surgiu, ainda criança, em um cenário aonde reinava a voz poderosa de Vicente Celestino (1894-1968), o “Ébrio” do amor que dominava como ninguém os dós de peito, de quem ela cantava uma pá de sucessos ao preço de dez tostões recolhidos da vizinhança. Em 1967, ela gravou “Modinha”, parceria de Maurício Tapajós, Hermínio Bello de Carvalho e Cacaso, lançada um ano antes por Fernando Lébeis.

“Meu Carnaval” (samba, 1968) – Cacaso e Elton Medeiros
Elton Medeiros (1930-2019) tinha fama de difícil, genioso. Suas melodias também não eram das mais fáceis. Apesar disso, quando tocadas, espalhavam uma beleza melancólica, que dava a impressão de simplicidade, resultado da perfeita harmonização entre suas partes. Como ninguém, ele dominava as capacidades percussivas de uma caixinha de fósforos, instrumento usado por bambas como o conterrâneo Zé Kéti (1921-1999) e o paulista Adoniran Barbosa (1910-1982). Ao longo da trajetória, o músico compôs com Mauro Duarte (1930-1989), como a animada “Meu Sapato Já Furou”, lançada por Clara Nunes (1942-1983), Paulo César Pinheiro, Ana Terra e, com o poeta mineiro Cacaso (1944-1987), o samba “Meu Carnaval”, lançado por Paulinho da Viola.

“Dentro de Mim Mora Um Anjo” (MPB, 1975) – Sueli Costa e Cacaso
João Medeiros, que já era parceiro musical de Sueli Costa, foi quem a apresentou ao poeta Cacaso. Carioca criada em Juiz de Fora, Sueli logo se identificou com o mineiro de Uberaba que se mudou para o Rio. Juntos, eles criaram “Dentro de Mim Mora Um Anjo”, que foi gravada, em 1975, por Sueli para a trilha da novela “Bravo”, da Rede Globo. Atenta, Fafá de Belém não demorou a perceber a beleza daquela canção, e a regravou em seu terceiro disco de estúdio, “Banho de Cheiro”, lançado em 1978. A música abria o álbum em que Fafá aparecia na capa com um generoso decote e seu olhar sensual. A música foi gravada por Leila Pinheiro, Lucinha Lins e Wanderléa, entre outras.

“Pedra da Lua” (MPB, 1977) – Cacaso e Toninho Horta
O equívoco acontece com frequência, e nem é tão injustificado assim. Afinal de contas, apesar do sotaque carioca de seus integrantes, “muita gente acha” que o Boca Livre é “um grupo mineiro”, admite o capixaba Zé Renato, que adotou o Rio de Janeiro em sua mocidade, e, nos últimos tempos, radicou-se em São Paulo. Da sonoridade ao repertório, desde o primeiro álbum, de 1979, a música do quarteto vocal conversava com a obra de Toninho Horta, Nelson Angelo, Fernando Brant (1946-2015), Cacaso (1944-1987) e Milton Nascimento. De Toninho e Cacaso o grupo gravou “Pedra da Lua”, em 1979, lançada dois anos antes por Sueli Costa.

“Lero Lero” (canção, 1978) – Cacaso e Edu Lobo
Se alguém lhe telefonasse oferecendo “o maior projeto da história dos musicais do mundo, com a melhor recompensa financeira já vista”, Edu Lobo perguntaria de pronto: “Quando tenho que entregar as músicas?”. No caso de uma resposta generosa, do tipo, “quando você quiser”, ele admite que não teria condições de aceitar a oferta. “Tenho que sentar e procurar a música, ela não me procura, sinto inveja de quem tem isso, de repente uma melodia surge e a pessoa sai correndo, pega um pedaço de papel, anota. Comigo, isso nunca aconteceu”, afiança Edu Lobo, cujo cartel de sucessos inclui canções como “Ponteio”, “Arrastão”, “Lero Lero”, “Beatriz”, “Pra Dizer Adeus”, dentre outras, em parcerias com Capinam, Vinicius de Moraes, Cacaso, Chico Buarque e Torquato Neto.

“Meio Termo” (MPB, 1978) – Cacaso e Lourenço Baeta
Poeta ligado ao movimento marginal, o mineiro Cacaso, de Uberaba, migrou para o Rio de Janeiro e logo passou a estreitar conexões com a música, travando parcerias com Edu Lobo, Sueli Costa, Nelson Angelo, Elton Medeiros e outros. Em 1978, ele teve a honra de ser gravado pela maior cantora em atividade do país, Elis Regina, que registrou “Meio Termo”, parceria com Lourenço Baeta, no apoteótico espetáculo “Transversal do Tempo”, depois transformado em disco. A música era acoplada no show a “Corpos”, de Ivan Lins e Vítor Martins. Ambas perpassavam as questões inerentes à morte, que, segundo Cacaso, era radical.

“Se Porém Fosse Portanto” (MPB, 1978) – Cacaso e Francis Hime
Francis Victor Walter Hime, conhecido como Francis Hime, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto de 1939. Cantor, compositor, arranjador e pianista, Francis Hime começou seus estudos musicais aos seis anos de idade, com o piano. Na década de 1950, mudou-se para a Suíça, onde deu prosseguimento aos estudos. De volta ao Brasil, deparou-se com o início da Bossa Nova, movimento capitaneado por João Gilberto e Tom Jobim, e travou amizades com Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Dori Caymmi, Wanda Sá, Marcos Valle e outros nomes ligados ao movimento. Francis também se tornou parceiro de Chico Buarque. Em 1969, ele se casou com a cantora Olívia Hime. Entre seus sucessos estão “Passaredo”, “Meu Caro Amigo”, “Atrás da Porta”, “Sem Mais Adeus”, “Língua de Trapo” e “Vai Passar”. Em 1978, compôs com Cacaso a faixa-título de seu álbum: “Se Porém Fosse Portanto”.

“Lambada de Serpente” (MPB, 1979) – Cacaso e Djavan
“Como um estilista, até então Djavan só trabalhava sozinho, em música e letra. Neste ‘Alumbramento’ ele se abre a parcerias, entrando ‘oficialmente’ no primeiro time da música brasileira ao compor com gente como Chico Buarque (a linda canção-título), sendo carioca com Aldir Blanc (‘Aquele Um’, ‘Tem Boi na Linha’) e interiorano com o mineiro Cacaso (‘Lambada de Serpente’)”, lembra o jornalista Hugo Sukman. “Da atriz ao humorista, do poeta ao escritor, todo mundo escolhe Cacaso. Ele foi curto, mas eterno”, afirma Pedro Landim. Jornalista e primogênito do artista mineiro, a morte precoce do pai o deixou “sem chão” quando tinha apenas 16 anos.

“Gente Séria” (MPB, 1982) – Cacaso e Joyce Moreno
Parceira em “Gente Séria”, lançada por Emílio Santiago em 1982, a compositora Joyce Moreno pinça uma frase da canção para atestar a permanência do discurso de Cacaso. “Ele tem muito a dizer para os nossos dias atuais. A frase final é perfeita: ‘Tem gente séria tirando sarro’”, recita. Vizinho de bairro e companheiro de futebol de areia nas praias de Copacabana, o cineasta José Joffily realça esse entendimento. “Na verdade, Cacaso foi o primeiro artista que conheci. Ele tinha uma visão muito original que permanece, principalmente para combater o terno e a gravata. A dessacralização era sua meta. Ele buscava a simplicidade com poucos acordes, assim como João Gilberto”, compara.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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