Saudades de Audrey Hepburn

“O viveiro dos felinos de um zoológico tem um cheiro desagradável, um ar carregado de sono, macilento com hálito velho e desejos mortos. Em uma comédia com um quê de melancolia, a desgrenhada leoa reclinada em sua jaula parece uma rainha do cinema mudo” Truman Capote

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Lia uma frase numa vitrine, quando de repente notei o outro lado. Quem é ela? Uma pessoa do outro lado tão reconhecível e tão distante. Pensei tê-la visto, talvez, em algum filme, mas logo essa impressão se embaçou, afinal não era possível que o cinema atracasse na minha realidade. Num espasmo, tive a nítida impressão que essa pessoa era eu, e que, apesar de se tratar de uma mulher madura, alguns gestos coincidiam com os meus preferidos, naquela parte da tarde, mais especificamente naquela vitrine, do outro lado.

Quem é ela? Pensei. Uma pessoa do outro lado. Tão reconhecível e tão distante. Refratei qualquer possibilidade de delírio, espécie de fuga da realidade associada à loucura, e não ao consentimento consciente, ativo, determinado. O delírio, naquele caso, poderia ser que a minha imagem refletisse naquela vitrine algo que a alma teimava em constatar, e que o corpo escondia. Sob a forma marrom e aristocrática do corpo, estaria uma alma petulante, que por acidente escolhera aqueles membros para seu refúgio.

O certo é que me via como Audrey Hepburn. E sentia saudades de Audrey Hepburn. De seu chapéu de lado, de sua cigarrilha na boca, de sua vida disfarçada pelos holofotes, de ser no cinema uma prostituta atrapalhada e na realidade uma esguia dama. Queria me refugiar em meu próprio colo, no colo de Audrey Hepburn, e me veio à cabeça uma frase: na minha geração só reconheço a mim: mesmo. Na minha geração, essa farsa. Queria escrever sob a inspiração de filmes, frases, pinturas, músicas, mas para Audrey Hepburn isso era um luxo, uma bonequinha de luxo.

Agora metamorfoseado sob esse lenço fantástico e fantasioso, percebia que o universo gradeado das vitrines já não me sustentava. Eu planava. E os temas se repetiam como plumas, como as crenças fantásticas da bonequinha de luxo, dos mártires do rock: amor, sexo, drogas, traição, culpa. Todos me rodeavam. E eu planava. Eu era uma bonequinha de luxo. Saudades de Audrey Hepburn. Saudades. A minha linda lida leviana atentava que em CaêTa No VeLoSo! eu existia apesar dos contrastes, apesar dos asnos e dos altares. Eu existia apesar de tudo, e para ver tudo, podia comparar com a minha própria mão. A mão de uma bonequinha de luxo. De Audrey Hepburn.

Nesse instante, com o livro velho de receitas de minha mãe li uma frase que me machucou muito: “eu também choro sozinha”. Mãe e filha. “Não te livrarei da decisão que é sua. Somente sua. Não te livrarei do domínio, não te livrarei dos açúcares, de ser possuída. Não te livrarei de um homem. De seus martírios. Não te livrarei dos domínios da vida. Não te livrarei de tudo. Não te livrarei do desespero. Dessa vida. Caótica, capenga, cheia de miséria. Dessa vida caolha, canhestra. Não te livrarei do desespero. Não existem caminhos seguros para o desterro. Não existem atalhos para o desespero. Não te livrarei de tudo. Não te livrarei. Não te livrarei. Jamais farei o que se espera de mim. Jamais serei. Considero invasivo. Que as pessoas depositem esperanças em mim. Somos todos suscetíveis. Há sempre um muito o que dizer e muito pouco a esperar. Não te livrarei do prosaico e do pragmatismo”. Guardou na enciclopédia aquelas palavras para provar que o tempo era impossível, uma mera questão de destino. Saudades de Audrey Hepburn. Saudades.

Audrey_Hepburn_by_saraaniceto

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo; e Montagem com foto original do filme “Bonequinha de Luxo”, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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