Inezita Barroso (Sertanejo & Caipira)

Sertanejo

Há entidades que superam em muito suas respectivas produções. Nesse caso, a paulista Inezita Barroso pode-se considerar exceção no meio, prolífica tanto em acalentar canções de sucesso quanto em colocar o povo ao contato de suas raízes.

Raízes de fato, aquelas que emanam do mais puro atrelo ao que é maternal, vem de berço, da nascente que carrega vaga-lumes, pingas e barros. Folclore e sertanejo podem se colocar em equivalência num país de histórias insensatas e cativantes como o Brasil.

“Com a marvada pinga 
 É que eu me atrapaio 
 Eu entro na venda e já dou meu taio 
 Pego no copo e dali num saio
Ali memo eu bebo 
 Ali memo eu caio
Só pra carregar que eu dou trabaio

São essas histórias, acompanhada de sua viola no braço, carregada com o peso dos dias vindouros e as auroras ao cair da tarde, numa ribeirinha assombrada por um lampião a gás, que Inezita Barroso humildemente traga ao convívio do sabor familiar.

O país que é uma família de contrastes, disparidades, irreverências e saneamentos básicos a faltar por toda parte, acaba se encontrando entre cercas nesse tricotar quase diário com o café quentinho e fresquinho colocado à mesa por Inezita, logo ao cantar do galo e tirar de leite da vaca, que mastiga no pasto o verde mato da lida.

“Lampião de gás
Lampião de gás
Quanta saudade
Você me traz”

Um capiau, caipira, ou Curupira de fogos nas ventas, revigora a força necessária para erguer a enxada quando ouve as mazelas do nosso sertão, tão desgastado, amarelo, por vezes relegado a sabedorias de chapéu de palha e cachimbo de Saci Pererê dum preto velho ao rogado. Sertanejo é aquele que bebe o amarelo da paisagem, cana transformada em cachaça.

Laureano, Tião Carreiro, Hekel Tavares, Zé do Norte, Mário de Andrade, João Pacífico, Raul Torres, Cornélio Pires, Renato Teixeira, Almir Sater, Rolando Boldrin, Tonico e Tinoco, Capitão Furtado, Ratinho & Jararaca, Mazzaropi, brasilidades abraçadas na voz regional de Inezita Barroso. ‘Quem fala do seu quintal, fala do mundo todo’, repete o discípulo.

“Eu tenho uma mula preta
Tem sete parmos de artura
A mula é descanelada,

Tem uma linda figura
Tira fogo da carçada

No rampão da ferradura
Coma a morena delicada,

Na garupa faz figura
A mula fica enjoada,
Pisa só de andadura!”

Marvada Pinga

Raphael Vidigal

Lido na Rádio Itatiaia por Acir Antão dia 04/03/2012.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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