Crítica: “Chaves” é marco de resistência da cultura mexicana no Brasil

“A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” Seu Madruga

Chaves

Durante praticamente duas décadas o Brasil respirou sob um ritmo mexicano. Foi nos anos 1940 e 1950, portanto muito antes da estreia do seriado “Chaves” em seu país natal. O bolero dominou a canção e o coração brasileiros, o que não é difícil constatar ao percebermos a quantidade de versões e vozes que o entoaram, para ficar em exemplos mais claros, o folclórico “Cielito Lindo”, (do refrão: ai, ai, ai, ai, está chegando a hora/o dia já vem, raiando meu bem/é hora de ir embora), e de “Bésame Mucho”, criação de Consuelo Velazquez popularizada pelo “Trio Los Panchos”, outro a fazer enorme sucesso na terra de palmeiras onde canta o sabiá. Logo a influência da cultura mexicana na nossa não se restringe aos personagens criados por Roberto Gómez Bolaños.

No entanto, não é segredo para ninguém, ou ao menos não deveria ser, que o plano imperialista do estado norte-americano passa, preponderantemente, pela cultura e propaganda. Foi com este intento que a terra de Walt Disney passou a enviar para o Brasil, entre outros, Nat King Cole – inclusive cantando (bem) em português – Louis Armstrong, e a importar Ary Barroso que criou canções para os clássicos desenhos com a participação de Zé Carioca. O que explica então que o bolero tenha sido varrido do mapa e o consumo de música, filme, literatura, artes plásticas, dança e produtos alimentícios vindos do Tio Sam não tenha sido capaz de eliminar a presença de Chaves e sua Bruxa do 71? Talvez algo relacionado ao poder que o humor tem de despistar o seu real combate.

“Chaves” engana desde o princípio. Primeiro, é despretensioso. Parte do pressuposto lúdico, fantasioso, pouco crível, de ter adultos interpretando crianças (receita que funcionou muito bem no Brasil com o “Castelo Rá Tim Bum”). Segundo lança mão de situações cotidianas e, o mais importante, decorrentes da vida da camada mais pobre da população, a que potencialmente se identifica com o seriado em número e qualidade. É uma vila simples, com personagens simples que são, ao mesmo tempo, extraordinários (por caricaturais) e ordinários, banais, comuns, afinal, provavelmente, assim como Roberto Gómez Bolaños, somos crianças procurando sonhos enquanto o corpo de adultos nos lembra da realidade que cobra aluguel. Mas há o humor.

A conotação cômica da série é determinada tanto em seu aspecto formal quanto de conteúdo. Os figurinos exagerados, a composição exuberante (não em termos de luxo e refinamento, mas na palheta de cores), e as próprias situações exploradas, os bordões e as ‘marcas’ de cada personagem, garantem, primeiramente, uma graça puramente física, mas “Chaves” nunca foi só isso. Quem parar para prestar atenção ao texto pinçará expressões capazes de tirar do sério o mais sisudo dos filósofos pós-Nietzsche. Afinal não é para qualquer um bolar frases da concisão e absurdo de um “prefiro morrer do que perder a vida”, ou mesmo “foi sem querer querendo”. Aquilo que poetas como Mario Quintana e Manoel de Barros chamaram de infância da palavra, a condição de brincadeira que deram às suas artes, Roberto Gómez Bolaños deu, com mais popularidade, à sua série. No que intérpretes originais e dubladores nativos contribuíram muito.

E para quem almeja arte mais sofisticada dos mexicanos, Frida Kahlo também colore o mundo para sobressair-se à dor.

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Raphael Vidigal

Pintura: “Moisés”, de Frida Kahlo.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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