Causo do sul de Minas

“O silêncio sustenta caules
em que o perigo gorjeia.” Ferreira Gullar

candido-portinari

A balança pende para o lado dos mais fortes. A balança pende para o progresso. Reprimido num corpo por demais curto para suas náuseas e ataques histéricos, naquilo onde se confina a invocação da pessoa: um cão de guarda, pronto para o ataque todo tempo. Caçador de onça atrevida aproveita a caminhada ao morro onde a bichana deve estar escondida. Diz sem indignação na voz, certo de que fala com obediência a Deus e convicção do pleito. O pai afunda-se na bebida. A mãe cuida das atividades domésticas, cuida dos filhos. Triste realidade. E que encruzilhada. E que armadilha. A que preparam para a onça conta com o medo e a coragem de homens dispostos ao enfrentamento. De frente, pois o tal mamífero só encontra vítimas quando distraídas recebem pelas costas a surpresa. Ao contar é ainda dia, ao pé do morro esperam do sol o castigo até se recolher. Como o senhor de engenho após bater com chibata no lombo do escravo negro, até deixar-lhe rubras marcas, encaminha-se para a cama, recolhe-se ao lençol branco e dorme lembrando o sangue que tanto ama: de sua virgem esposa, de sua amante crioula, do homem regenerado em dores a lembrar o sacrifício cristão.

Morremos pelos outros todos os invernos. As tochas nas mãos dos homens cingem: não é mentira a afirmação insana. À espera do negrume alcançar os picos fervilhantes como bicos de seios maduros daquele imenso morro. Donde o minério explode e há uma bichana igualmente imensa, de guarda, que protesta para si o que é teu de fato. A rancorosa ação dos homens contra a assassina por natureza, instinto e fome reabre o círculo de fogo ao redor. Desmatam, expulsam do ninho os pássaros, cospem a fumaça do dragão colossal preso na imaginação, de magnitude e desprezo ao outro. Porque consideram os responsáveis por arrumar as coisas? Ajeitar a casa? Se mal conseguem dispor como bípedes de um pouco de inconsciência? Nunca pensaram que a maioria dos gestos ocorre por um magnetismo automático e que: seres tão incapazes de nós quanto os restantes mesmos? Um estampido anuncia como tiro de canhão o embate. A onça se aproxima lentamente em terríveis passos. Abre a orgíaca boca: mostra obscenos retratos. Não emite som. Avança na direção. Que se esbaforiu e encontrou caminho por entre ervas daninhas.

O silêncio supremo, conciso, irrevogável. Todas as criaturas admiram a onça assustar os homens, (pássaros cantam) – pois que se julgaram laços. Põe-se em duas patas a dançarina onça. Enquanto nós, solenemente, nos pomos de quatro. Distribui as garras, como quem tira anéis dos dedos, e pouco a pouco eles caem, feito diamantes, esmeraldas, brilhantes, pérolas, ouro, prata, riquezas dos homens, à qual a natureza é indiferente. Nada soluçamos, desentendemos. Põe-se então a onça a dispor o pelo, já sobre duas patas, arrasta como uma saia a parte baixa de seu amarelo, branco e preto pelo. Então percebemos ser de fato saia, rodada, transparente, com lírios brancos desenhados no torso, a onça despida: nua. A saia ao chão, e o útero da donzela animal não despista a aparência existente. Inicia o derradeiro rito, e esfrega as mãos sem anéis, com o auxílio do dorso despido, a retirar toda a maquiagem que mascara o rosto. Escancara a boca morena, sem batom, e dela tira uma dentadura de afiados dentes, caninos de mortíferos projéteis homicidas, põe para fora a língua, sexual e lasciva. Lambe-me despudorada, a onça: Ágata.

portinari

Raphael Vidigal

Pinturas: “Caçador de onça”; e “A Onça”, de Cândido Portinari, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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