Artigo: Por que só agora, Lula?

“Demonstrar-lhe que, para a vida, se nasce de tantos modos, de tantas formas… Árvore ou pedra, água ou borboleta… ou mulher… E que se nasce também personagem!” Luigi Pirandello

Lula é investigado pela Lava Jato

Uma das poucas coisas que se aprende com o jornalismo é que versões oficiais dificilmente interessam, pela natureza de seu caráter que as impede de alguma sinceridade para além das aparências. Logo, é preciso ser auspicioso e perspicaz a fim de estimar o que brasões e espelhos escondem. Noutras: quais interesses movem os envolvidos? Para investigar e planejar a derrubada de figuras poderosas é imperioso contar com o apoio e suporte de outras tão ou mais poderosas do que ela. Isso diz a história, as peças de Shakespeare e alguns filmes de Rossellini. Trocando em miúdos, não haveria o golpe militar de 1964 ou a eleição de Collor sem certo respaldo importante, global, robusto. Maquiavel diz que um príncipe não deve formar “exército de mercenários”, pois poder e dinheiro mudam de mãos, e aquelas que foram beijadas tendem a ser dispensadas com o escárnio e escarro citados pelo poeta Augusto dos Anjos.

Hipoteticamente: poderia se investigar, no Brasil ou na Dinamarca, a compra de votos para aprovar a reeleição, a distribuição de concessões para rádio e televisão a políticos proeminentes neste período histórico, ou até, quem sabe, desvios de verba em alguma hidrelétrica nacional. Por que se escolhe um personagem em determinado período histórico não é culpa do acaso ou do mero acidente dos fatos. Estes são sempre perpassados por intenções, interesses, e, acima de tudo: respaldo. As estruturas de poder, no mundo todo, como já dito antes, podem ser avaliadas e observadas em peças de William Shakespeare, Bertolt Brecht e Eugène Ionesco, mas aqui não precisamos de Ministério da Cultura, confundida frequentemente com mero entretenimento. Quem cumpre ordens pode até ser um idealista, afinal é ele quem vai para o campo de batalha, e é pouco provável que arrisque a pele se não lhe venderem o próprio ato como heroico. Mas quem determina a ordem não é um idealista.

Conhecendo o sistema de poder que costuma reger as relações políticas institucionais parece pouco crível que alguns agentes isolados de determinado setor desbaratem toda essa cadeia munidos tão somente da força de sua coragem e do ímpeto de estabelecer a ordem. Nessas estruturas, todos os atores são políticos, o que significa dizer que possuem interesses da mesma ordem, e movem-se de acordo com a falta ou a presença do supracitado respaldo. Chegamos então ao ponto nevrálgico da questão, pois, por se tratar de um jogo de espelhos, de aparências, de duplos, como na peça “O Balcão”, de Jean Genet, expressa-se uma ação para que outra se consume. O discurso do combate à corrupção emociona, enternece, toca, cria revolta, adesão. Serve para se obter outro feito talvez não tanto louvável aos olhos da moral e do processo histórico. Por que agora? Por que com um e não outro? A impressão que fica é a que se quer inviabilizar certo modelo governamental, com características similares a outro que, para além dessas semelhanças, tende a expurgar o pouco da parcela progressista que se acomodava antes. Não há idealistas jogando, só na plateia.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa

Raphael Vidigal

Fotos: Beto Barata; e Fábio Vieira, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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