A Previsão da Cigana

“Ó meu corpo, protege-me da alma o mais que puderes.
Come, bebe, engorda, torna-te espesso para que ela
me seja menos pungente.” Marie Noël

John_William_Waterhouse_-_Magic_Circle

A placa indica o local. O marmanjo parrudo de óculos infantis e postura inconstante assegura: a natureza sobreviverá. Ao progresso e à devastação. Quase chora. A mulher de grampos prendendo os cabelos loiros por tintura da farmácia, mistura de água oxigenada, cai aos pedaços. Tolice estar mal cuidada, afinal o acervo possui exemplares raros. Ali estanques na estante poluída e gasta lembram uns carcereiros empoleirados. Sujos, revoltos, bagunçados, carregam o nome luminoso na capa. “Moby Dick”, de Herman Melville, “A Metamorfose”, de Franz Kafka, “Poesia Completa”, de Fernando Pessoa; sem dúvida, exemplares raros, deixam na boca o amargo por ser impossível tocá-los sem sentir o desprezo de estarem tão mal cuidados.

Silenciosa, sobrancelhas em circunflexo, a inquirir para a bonita dama: morena de seios fartos, curvas salientes nos quadros, boca polpuda, polpa de fruta escoa em íris característica: donzela de verdes olhos, Ágata. Ao ler a mão dispensa ensaios: estará presente nos fatídicos acontecimentos, corre perigo, sacrifícios e mortes presenciadas, animais jogados à vala, homens julgados, e o crepuscular engolir do mundo a rir qual hiena desdentada. Marina repele a doida com o descaso a repercutir na sombra maior ao pequeno porte distribuído numa mulher de idade há anos sabor de desejo e paparicos.

Idêntica à outra, mas branca e de cabelos castanhos, antes de começar a pintá-los. A cigana tem os cabelos negros do pelo de lobo mais agressivo. O nariz aponta para a minguante enquanto a boca de sexo uiva e agoniza. Enrola acima dos ombros o capuz, vermelho. Lamenta apenas nu o triângulo deduz abismo e possibilidade, êxtase e carência, cólera promissora. Ao segundo esvai-se, salta além do óbvio. Como sabe não diz. Ousa tocar a alma e some, desmancha. Desconhece se o acontecido é alucinação ou embate com a realidade absurda de Santa Maria.

John_William_Waterhouse

Raphael Vidigal

Pinturas: Obras de John William Waterhouse.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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