10 músicas do Brasil para o “panelaço”

“Eu não quero você nem pra pegar na alça do meu caixão…” Panela e Garrafão

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Quando a presidente eleita com 51% dos votos discursava no “Dia da Mulher”, panelas foram ouvidas nos bairros mais ricos das capitais. O intento era de provocar bramido, ruído, incômodo, e sobretudo protestar contra as palavras de Dilma Rousseff. Essa anedota, como se constata, aconteceu no Brasil. Não obstante o conteúdo pouco consistente e em muita medida falacioso e ridículo da presidenta, há de se notar uma característica primária e preconceituosa no ato de alguns “paneleiros”. Por isso chamamos à roda aqueles que souberam protestar, acariciar ou bramir com maior elegância. Através da música brasileira. Panela cheia, vazia, velha ou do diabo, todas com a garantia e o selo da arte.

Panela Velha (música sertaneja, 1983) – Auri Silvestre e Moraezinho
Já convertido à música sertaneja, depois de uma breve passagem pelo rock da “Jovem Guarda” no início de carreira, Sérgio Reis lançou em 1983 aquele que seria seu grande sucesso. “Panela Velha”, de Moraezinho e Auri Silvestre, busca, através da metáfora, justificar o romance de um rapaz mais jovem com uma senhora de idade. A utilização de expressões sugestivas cai bem ao texto, que se utiliza da gíria fartamente conhecida para designar mulher mais velha, a “coroa”. Através deste universo lúdico, entre o cômico e o romântico, o refrão se tornou um dos mais repetidos em todo o território nacional. Certamente angariou mais votos que os protestos contra e a favor a presidente da nossa República.

A Panela do Diabo (rock nacional, 1989) – Raul Seixas e Marcelo Nova
“A Panela do Diabo” é o nome do último disco lançado por Raul Seixas, em 1989, ano em que faleceu vítima de pancreatite aguda decorrente de abusos do álcool. Marcelo Nova, conterrâneo de Raul e líder da banda “Camisa de Vênus”, acompanha o “Maluco Beleza” nesta última empreitada, e assina com ele todas as composições do disco, com exceção da vinheta “Be-Bop-A-Lula”, e “Quando eu morri”, somente do pupilo. Raul e Marcelo, que sempre se destacaram pelo repertório corrosivo e contestatório não deixam barato, e abrem fogo contra autoridades religiosas, em “Pastor João e a Igreja Invisível”, aqueles que cravavam o fim do ritmo preferido e todo tipo de comportamento conservador. É a panela do diabo fumegante, esfumaçando, mais quente do que nunca!

Chá de Panela (MPB, 1996) – Aldir Blanc e Guinga
“Chá de Panela” é uma homenagem da dupla Aldir Blanc e Guinga ao mais inventivo e irreverente compositor instrumental brasileiro. Hermeto Pascoal, conhecido por tirar som do impossível e até do possível é reverenciado nesta obra, pela qual o responsável pela melodia, Guinga, recebeu o “Prêmio Sharp” no ano de seu lançamento, em 1996. Aldir Blanc usa da habitual categoria e liberdade para rechear a letra ao sabor da criatividade de Hermeto. A música foi registrada por Leila Pinheiro no álbum “Cata-vento e Girassol”, todo dedicado ao trabalho de parceria entre Guinga e Aldir. Entre os ensinamentos de Hermeto que Aldir captura salta aos olhos este: “vi que música é tudo que avoa e rasga o chão”, entre outras deliciosas impropriedades! Bom uso da panela e de chá.

Franguinho na Panela (moda de viola, 1999) – Moacyr dos Santos e Paraíso
A história de “Franguinho na Panela” é curiosa e até exótica. Isso porque um dos autores não chegou a vê-la pronta. Moacyr dos Santos, sendo dos mais requisitados letristas de moda de viola no país, tendo composto para Tião Carreiro, Pardinho, Lourenço & Lourival, Goiano & Paranaense, e muitos outros, certo dia levou até Paraíso o rascunho do que seria a canção “Franguinho na Panela”. Acontece que, mesmo encantado com aqueles primeiros versos, Paraíso, em decorrência do alto número de serviços a resolver naquela tarde no seu escritório, acabou deixando a canção para depois. O ano era 1996. Por artimanha do destino, Moacyr veio a falecer dias depois. Inconsolável pelas duas perdas, Paraíso tentava lembrar a melodia da música e nada. Tempos depois, a sorte sorriu para Paraíso novamente, quando uma dupla chegou a seu escritório com a guia de “Franguinho na Panela” registrada. Com isto, Paraíso pôde finalizar a obra, finalmente lançada em 1999 por Craveiro e Cravinho. A canção traça um retrato fiel da rotina do sertanejo e a alegria em saber que para os filhos e a esposa a herança do trabalho é o franguinho na panela. Êta lembrança boa da dura vida no sertão.

O Povo Quer Comida Na Panela (embolada, 2010) – Caju e Castanha
A dupla de repentistas Caju e Castanha, cujo gênero é também conhecido como embolada, lançou no ano de 2010, primeiro da eleição da presidente Dilma Rousseff, a música “O Povo Quer Comida Na Panela”, de alto teor político. Carregando a herança e as influências de Jackson do Pandeiro e Ary Lobo, a dupla de pernambucanos acerta no ritmo e nas reivindicações. O que traz à tona o grau de antiguidade de alguns problemas brasileiros, como a miséria, a fome e a retórica política à luz da qual o povo sofre. Ou das trevas. Além do pandeiro, os dois se armam de versos que conclamam o povo brasileiro a lutar, com igualdade, por uma causa justa e inadiável. A necessidade de se corrigir os abismos sociais num país onde uns têm dinheiro na cueca e, a outros, falta comida na panela.

O Mundo [Panela de Pressão] (rap, 2013) – BNegão
Oriundo do grupo de rap “Planet Hemp”, BNegão, até pela característica do gênero, sempre teve a contestação como um dos planos pilotos de seu projeto de descarga elétrica. O rap pode ser sentido principalmente pelo canto falado do intérprete, embora no álbum “Sintoniza Lá”, arquitetado com os músicos do “Seletores de Frequência”, seja difícil definir um só ritmo para as canções. “O Mundo [Panela de Pressão]”, no entanto, segue com um tema caro a BNegão, as injustiças de uma realidade ostensiva, hostil e pouco receptiva à camada da população menos abastada economicamente. Mas cheia de gana e voz para lutar por seus direitos. Afinal, diz-se deste estado excludente ao qual pertencemos, ser um estado de direito. Pouco ou nada representativo. BNegão atesta: “várias tensões/várias situações/o mundo/panela de pressão!”.

Envelhecer (pop, 2009) – Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci e Ortinho
Em 2009 Arnaldo Antunes atingiu o pico do projeto de transformação de sua música em algo pop, o que havia rejeitado e combatido desde a saída do grupo “Titãs”, quando mergulhara fundo nas investigações formais e de conteúdo da arte e da poesia concreta. “Envelhecer” pertence ao álbum “Iê Iê Iê”, icônico deste período. Nesta canção, apesar da irresistível leveza, Arnaldo não exclui seu olhar argucioso e as observações existenciais sobre vida, morte, tempo. Há espaço também para as habituais pitadas de ironia e inserções bem descritivas do mundo globalizado. Como, por exemplo, na menção à cantora italiana Rita Pavone, que rima com ringtone. Além de vaticinar a modernidade em envelhecer, Arnaldo, em parceria com Marcelo Jeneci e Ortinho, usa uma bela imagem para registar esse momento: “eu quero que a panela de pressão pressione”. Como se vê o artista não abriu mão nem da poesia nem das imagens, conservando princípios raros.

Vá morar com o diabo (samba, 2000) – Riachão
Não poderia o samba, ritmo mais tradicional do Brasil, ficar fora desta panelada. Ainda mais tendo Riachão, Caetano Veloso e Cássia Eller nesta conversa. A música “Vá morar com o diabo” foi lançada para o sul maravilha em 2000, pelo baiano Caetano Veloso, mas certamente já era cantada e abusava de sucesso popular na boa terra de Riachão. Quando em 2001 Cássia Eller a registrou em seu “Acústico MTV”, a explosão se deu por completo. Não podemos assentir que é com toda a razão que a personagem reclama das manhas, mimos e folgas daquela mulher. Mas uma coisa é certa, “se a panela tá suja/ela não quer lavar/quer comer engordurado/não quer cozinhar/(…)/quer agora um Cadillac para passear…”. Isso não está certo. Ou está?

Pelas tabelas (samba, 1984) – Chico Buarque
Chico Buarque talvez tenha sido o primeiro a falar sobre bater panelas na canção brasileira. Certamente o de maior sucesso. No samba “Pelas tabelas”, de 1984, o alvo era certo, a ditadura e o crescente movimento pelas “Diretas Já”. Além disso a letra brincava com a troca e o engano das palavras entre si, como num jogo de esconde-esconde, um quebra-cabeça. Se naqueles anos o cenário político definia-se claramente entre direita e esquerda, pode-se dizer que houve o acréscimo de uma palheta de cores nos anos 2000. É inegável, no entanto, que quem deseja articular a queda de uma presidente eleita democraticamente por descontentamento individual compactua com a ideia de golpe. O que ao Brasil trouxe, no passado, consequências trágicas e irreparáveis. Sigamos com Chico Buarque, ao menos na música, onde é craque. “Quando vi um bocado de gente descendo as favelas/Eu achei que era o povo que vinha pedir/(…)Minha cabeça de noite batendo panelas…”.

Estatuinha (bossa nova, 1965) – Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo
“A Mão Livre do Negro” era cantada por Gianfrancesco Guarnieri, um de seus autores, na peça “Arena Conta Zumbi”. Quando desceu dos palcos de teatro para encantar a plateia nos espetáculos de Elis Regina, a música recebeu batismo novo. Acompanhada pelo conjunto “Zimbo Trio”, a “Pimentinha” registrou a música no álbum “Elis”, lançado em 1966. Agora com o nome de “Estatuinha”, modo pelo qual os negros se referiam às estátuas de argila que construíam, a música, que tem melodia de Edu Lobo, versa justamente sobre esse universo. As desigualdades sociais e a condição do negro nesse cenário eram constantemente lembradas por aqueles que combatiam não só a ditadura vigente, como as heranças maléficas da escravidão. Por isso Elis aludia à panela nascida da argila, da mão do negro, “nasce panela pra gente comer”. Esta sua missão. Seu intento.

*Bônus

Não suje meu caixão (samba, 1969) – Panela e Garrafão
O Brasil é um país cuja arte popular supera, em muito, a arte erudita. Não foi sem uma dose de razão e radicalismo que Miles Davis disse: “existe a música negra americana, a música erudita europeia e a música popular brasileira”. Pois residem nessas raízes nossas maiores riquezas. Basta olhar com cuidado para o folclore, para as cantigas, as cantilenas, as danças típicas como o frevo, o baião, o xote, os ritmos como o samba, o forró, o maracatu. Ou seja, toda a nossa arte mais conhecida e reconhecida emerge dessas camadas. Sem sombra de dúvidas, e à luz das dificuldades, dos trancos e barrancos diários. Como não poderia deixar de ser nossos heróis trazem no nome a assinatura deste ambiente criativo e fértil. Mesmo no futebol nosso Rei se chama Pelé, e o Príncipe é um Garrincha. Pois na música brasileira de Batatinha, Blecaute, Jamelão, Pixinguinha, Garoto, Dominguinhos, Gordurinha, Cartola e tantos outros, temos também Panela e Garrafão, autores do samba “Não suje meu caixão”, lançado em 1969 e cantado por Alcione, Antônio Moreira e seu autor mais do que repetido e celebrado, com usos diversos e inusitados: Panela!

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Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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