10 músicas brasileiras para o coração

“Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?” Fernando Pessoa

Artistas brasileiros fizeram músicas para o coração

Na boca dos cantores, na pena dos poetas e sob o olhar dos amantes e das paixões tardias, ele recebe vários contornos, cores diversas, mas a expressão é sempre a mesma: símbolo do sentimento; representa o amor e a vida. Por isso foi instituída data para não esquecermos que ele merece cuidados. Para celebrar o Dia Mundial do Coração, listamos abaixo 10 músicas brasileiras sobre o tema. Materno, leviano ou vagabundo; em desalinho ou de estudante; o coração do Brasil bate em seu TIC-TAC ao ritmo de forró, xote, samba, marcha e até tango. Dramático ou satírico, apaixonado ou tranquilo, o coração vem de Vicente Celestino, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Elba Ramalho, Zeca Pagodinho, ao ritmo da vida que recebe a música como remédio e amiga.

Coração [Samba Anatômico] (samba, 1932) – Noel Rosa
Pouca gente sabe que Noel Rosa foi estudante de medicina. Embora não tenha chegado a concluir o curso, a experiência lhe valeu para criar um samba, como era de costume. Em 1932, com sua característica veia satírica e “gozadora”, o poeta da Vila compôs “Coração”, com o subtítulo “Samba Anatômico”. Isto porque, ao contrário do usual na época, que tratava o órgão como uma metáfora do amor, Noel preferiu analisá-lo sob o ponto de vista biológico, ao menos aparentemente. Refazendo o trajeto do sangue venoso e arterial e esclarecendo a máxima sobre a localização do órgão, “ficas no centro do peito, eis a verdade”, Noel revela as contradições dos sentimentos, que passam também pela análise física, neste caso. A música foi lançada pelo próprio autor.

TIC-TAC do meu coração (marcha, 1935) – Alcir Pires Vermelho e Valfrido Silva
Natural de Muriaé, no interior de Minas Gerais, Alcir Pires Vermelho compôs, ao lado de Valfrido Silva, uma das marchas mais regravadas do cancioneiro nacional, sucesso instantâneo na voz de Carmen Miranda. “TIC-TAC do meu coração”, lançada em 1935, também traz a qualidade peculiar de misturar as características físicas do órgão a seus sentimentos mais abstratos, prova de que a sensação não se faz sem uma nem a outra. O exemplo fica mais claro logo nos versos inicias da canção: “marca o compasso do meu coração/na alegria bate muito forte/na tristeza bate fraco porque sente dor”. Pianista, Alcir tem o mérito de verbalizar o som logo no título da canção, com uma esperta onomatopeia. A música foi regravada por Ney Matogrosso, Nara Leão e outros.

Coração materno (tango-canção, 1937) – Vicente Celestino
Vicente Celestino foi o primeiro dentre os grandes cantores chamados de “dós de peito” da música brasileira, pela forte extensão vocal e o dramatismo nas interpretações, a que se seguiram nomes célebres como Francisco Alves, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves. Seguindo esta tradição Vicente Celestino, que também era ator, compôs em 1937 uma música inspirada em lenda, um caso estapafúrdio em que o filho assassinava a mãe para tirar-lhe o coração e entregá-lo à amada. Mais insólita ainda é a reação da pretendida, que afirma ao final do gesto trágico que não estava a falar a sério quando pediu tal prova de amor. Identificada como um tango-canção a música foi regravada por Caetano Veloso em 1968, no álbum da “Tropicália”.

Coração vagabundo (bossa nova, 1967) – Caetano Veloso
Antes de aderir por completo à Tropicália e instaurar o movimento definitivamente no cenário da música popular brasileira, a referência seminal de Caetano Veloso era João Gilberto. Por isso não é de se espantar que no álbum “Domingo”, lançado em 1967 ao lado de Gal Costa, que perto da época ainda assinava Maria da Graça, a influência estética do propagador mais incensado da bossa nova se faça tão presente. “Coração vagabundo” é um dos melhores exemplos, com sua melodia refinada, simples, seu violão rítmico e a voz macia, suave, quase imperceptível, não fosse pela poesia e sensibilidade que emana com tamanha força dos versos livres de derramamento e concentrados em sua elegância. Caetano narra, assim, mais um caso de amor desfeito, porém novo.

Coração leviano (samba, 1978) – Paulinho da Viola
Nomeado “Ministro do Samba” por Batatinha em música com tal título, Paulinho da Viola aprendeu em casa os ensinamentos do ritmo. Filho de Benedito Faria, integrante do conjunto “Época de Ouro”, que era conduzido por ninguém menos do que Jacob do Bandolim, o filho mais velho do chorão célebre uniu as influências do chorinho ao samba para criar uma maneira única e inconfundível de cantar e compor, assimiladas à sua própria personalidade. Por mais que cante desenganos, desamores, fracassos, Paulinho mantém certa calma na voz que é capaz de tranquilizar os corações mais aflitos. “Coração leviano”, um samba lançado no ano de 1978, reclama com a elegância típica do autor da deslealdade e ingratidão de quem “fere quem tudo perdeu”. Samba de primeira!

Coração bobo (forró, 1980) – Alceu Valença
Alceu Valença já era um cantor consagrado na música brasileira quando resolveu compor, em 1980, “Coração bobo”, música dedicada a Jackson do Pandeiro. Com a forte influência do denominado “Rei do Ritmo”, a canção transita por estilos da música brasileira, com um lento início em toada e a agitação tradicional do baião em sua segunda parte, especificamente o refrão: “coração bobo/coração/coração bola/coração balão/coração São João/ a gente, se ilude, dizendo/já não há mais coração…”. Assimilando as origens folclóricas das festas populares do nordeste, Alceu lega à música brasileira uma peça pronta para se dançar o forró, e deixar-se o coração levar pela alegria do povo, mesmo que, neste caso, como em muitos, os versos sejam de mágoa e alento.

Bate-coração (xote, 1982) – Cecéu
No universo patriarcal e tradicionalmente machista da música brasileira como um todo, mas, em destaque, do ambiente nordestino, a compositora Cecéu se destaca como uma das mais prolíficas em êxito popular como na qualidade de seu repertório, ao lado das não menos valentes Marinês e a leoa do norte Elba Ramalho que, inclusive, lançou um dos maiores sucessos da artista. “Bate-coração” foi um xote lançado em 1982 e regravada por diversas vezes. Sua permanência pode ser atribuída ao tema, ao ritmo, mas é, sobretudo, pela união dessas duas características que perpassou as vozes mais diversas. Universal como a abordagem é o sentimento, a sensação do coração batendo dentro do peito. Foi regravada por Angela Ro Ro em dupla com Elba Ramalho.

Coração de estudante (clube da esquina, 1983) – Milton Nascimento e Wagner Tiso
Guardião de sentimentos e propulsor da vida, o coração pode também ser político, como comprovam Milton Nascimento e Wagner Tiso. No ano de 1983 os dois receberam a incumbência de criar uma música para o filme “Jango”, sobre a trajetória do presidente João Goulart, deposto pelo regime militar responsável por instaurar a ditadura que perdurou no país por duas décadas. Nada mais propício, portanto, do que reportar-se ao coração utopista e ideológico daqueles que trazem a esperança. Por essas e outras, aliás, foi que “Coração de estudante” ultrapassou o propósito inicial e serviu como hino pela campanha das “Diretas Já” no ano de 1984, executada no funeral do também mineiro Tancredo Neves, um ano depois, antes de ser empossado presidente.

Coração em desalinho (samba, 1986) – Monarco e Ratinho
Zeca Pagodinho foi descoberto pela madrinha do samba em uma de suas visitas ao Cacique de Ramos. Beth Carvalho gravou “Camarão que dorme a onda leva” e tornou-o conhecido em território nacional, o que o permitiu gravar seu primeiro disco. Foi em sua estreia como cantor, portanto, que Zeca apresentou ao Brasil, logo de cara, um dos maiores sucessos da carreira. “Coração em desalinho”, um samba lançado em 1986 é cria de Monarco e Ratinho. O primeiro, no entanto, aparece identificado nos créditos do álbum com o pseudônimo Diniz, seu sobrenome de batismo. A música serve de alento aos corações machucados, já que “quem canta seus males espanta…”, como diz o ditado. Regravada pelas cantoras Beth Carvalho, Mart’nália e Maria Rita.

Coração do Brasil (samba, 1998) – Jards Macalé
Jards Macalé, um dos mais irreverentes e criativos compositores nacionais, com trajetória incomum dentro deste cenário, apelidado até, em certo momento e a contragosto, de “maldito”, prestou uma homenagem à identidade brasileira a seu modo, cinco anos antes de encampar o mote “Amor, Ordem & Progresso” para a bandeira, em 1998. “Coração do Brasil” é um samba, lançado no álbum “O Q FAÇO É MÚSICA”, com um único verso de única palavra repetido exaustivamente: “Coração/Ah coração!/Coração/Ah coração!”. A música recebe o acompanhamento da Velha Guarda da Portela, de Monarco e Cristina Buarque nos coros e vocais, além de Ovídio e Gordinho na percussão, e é dedicada ao cineasta Nelson Pereira dos Santos, um dos ícones do Cinema Novo. Condensa em seu bojo misto de lamento e exaltação.

Clara Nunes celebrou o samba e o misticismo cultural do Brasil

Raphael Vidigal

Imagens: Montagem com fotos de Caetano Veloso, Elba Ramalho, Carmen Miranda, Milton Nascimento e Alceu Valença, da esquerda para a direita e de cima para baixo, respectivamente; e a cantora Clara Nunes em foto de Arquivo/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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